Uma era de super-homens

por Léo Quintino Email

Por Almyr Gajardoni:

Está na praça uma nova biografia do cientista Albert Einstein – “Einstein, sua vida, seu universo”. Foi escrita porWalter Isaacson, que entre várias outras coisas foi presidente da CNN e diretor administrativo da revista “Time” (a primorosa tradução é de Celso Nogueira, Denise Pessoa, Fernanda Ravagnani e Isa Mara Lando). Seu ponto de destaque é ter sido escrita depois da liberação dos últimos documentos do grande cientista – particularmente suas cartas pessoais. Aqui temos, com toda exuberância, a rebeldia que marcou a personalidade de Einstein, não apenas no mundo da ciência e das idéias, mas também na vida pessoal, no casamento e nas relações afetivas, e até mesmo na identidade nacional – ele abriu mão da nacionalidade alemã, tornou-se um apátrida por cerca de cinco anos, e só assumiu a nacionalidade suíça porque precisava dela para arranjar um emprego público.

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Não conformista, rebelde, avesso à disciplina imposta, sempre empenhado em pensar à sua maneira, terror dos professores (que se vingaram, impedindo durante anos que se tornasse ele próprio professor). Sem jamais ter feito uma experiência em laboratório, aos quais não tinha acesso, edificou, apenas com o poder do pensamento, uma teoria que revolucionou o mundo da ciência em geral, e a Física em particular – na verdade, pode-se dizer que Einstein criou uma nova Física.

Pode-se pensar – isso tudo tem a ver com os físicos e suas complicações. E nós com isso? Isaacson explica com clareza: “Um século após seus triunfos, ainda vivemos no universo de Einstein, definido em escala macro pela teoria da relatividade e em escala micro por uma mecânica quântica que se provou durável, mesmo que continue desconcertante. As digitais dele estão espalhadas pelas tecnologias atuais. Células fotoelétricas e lasers, energia nuclear e fibras ópticas, viagens espaciais e até semicondutores derivam de suas teorias.” Tudo isso está exposto com clareza exemplar, ao longo de 675 páginas, e delas é impossível sair sem imaginar estarmos diante de uma pessoa prodigiosa, alguém dotado de super-poderes assim como os heróis das histórias em quadrinhos.

É o próprio autor, no entanto, que nos alerta para a necessidade de fugir dessas simplificações. “A vida e a obra de Einstein”, escreve logo no começo do livro – a observação está na página 23 – “refletem o rompimento das certezas sociais e dos imperativos morais na atmosfera modernista nos primórdios do século 20. O não-conformismo imaginativo estava no ar – Picasso, Joyce, Freud, Strawinsky, Schoenberg e outros alargavam os limites convencionais.” Einstein, portanto, revolucionou a Física – mas na época em que viveu, e sobretudo na época em que produziu seus melhores trabalhos, era toda a cultura que estava sendo revolucionada, por pessoas assim como ele, inconformadas, rebeldes, inimigas da disciplina, das regras e das tradições. É fácil conferir, ficando apenas com os exemplos citados pelo autor.

Albert Einstein nasceu em 1879 e morreu em 1955. Sua teoria da relatividade restrita é de 1905 e a teoria da relatividade geral, ou especial, de 1915. O compositor russo Igor Stravinsky nasceu em 1882 e morreu em 1913. Com “A sagração da primavera”, composta em 1913, deu início ao que ficaria conhecido como a música (erudita) do século 20. O escritor irlandês James Joyce nasceu em 1882 e morreu em 1941. Seu livro “Ulisses” marcou profunda transformação na literatura e foi escrito em 1922. Sigmund Freud nasceu em 1856 e morreu em 1939. Seu livro “A interpretação dos sonhos” é de 1900; “A psicologia da vida cotidiana” é de 1901; e os três ensaios sobre a teoria da sexualidade são de 1905. Eles são o alicerce do que ficou conhecido como Psicanálise. O pintor espanhol Pablo Picasso nasceu em 1881 e morreu em 1973. Sua fase azul vai de 1901 a 1904 e a fase rosa de 1905 a 1907, vindo esta a ser conhecida como Cubismo. O compositor Arnold Schoenberg nasceu em 1874 e morreu em 1951. Sua “Sinfonia de câmara” foi composta em 1906 e marcou, também, o nascimento da nova estética musical característica do século 20.

Talvez seja possível acreditar que os super-homens existam – alguns deles estão aí acima, por sinal. Mas também eles, como todos nós, dependem das circunstâncias e da realidade social do tempo em que vivem. Com certeza pode-se, pelo menos, considerar que o fim do século 19 e o começo do século 20 formaram uma era prodigiosa.

Almyr Gajardoni é jornalista

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