Uma boa assessoria em ilusionismo
por Léo Quintino
No Comunique-se, de Milton Coelho da Graça*:
Todos nós, jornalistas, estamos acostumados às previsões e explicações otimistas do ministro Guido Mantega, da Fazenda, em entrevistas ou distribuídas pelo seu eficiente pessoal de comunicação. Isso pode até ser bom para um país como o nosso, sempre tão animado em relação ao futuro. Mas o ministro e sua equipe enveredaram agora pelo caminho do ilusionismo, causador mais de dúvida e desencanto do que otimismo – 4% de crescimento este ano, os banqueiros falam em 0,8%!
Com Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento no exterior (norte da África) e percebendo que o saldo do comércio exterior seria negativo pela primeira vez no governo Lula (mais até, desde abril de 2001), a Fazenda buscou um artifício, inadequado para um governo democrático. Através de funcionários subalternos – porque Miguel Jorge até agora está caladinho e não meteu a mão nessa cumbuca -, pediu a criação de um mecanismo burocrático que “empurrasse” as importações dos últimos dias de janeiro para o mês de fevereiro.
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Logo apelidado, embora erradamente, de licença de importação, levantou uma onda de protestos de toda a sociedade, resumida com muita precisão por Miriam Leitão, em sua coluna no GLOBO (outros certamente também fizeram isso, mas, dos que li, Miriam foi a mais “global”), e a experiente equipe de reportagem do VALOR revelou todo o frustrado truque da suposta licença de importação.
Dêem uma olhada retrospectiva no noticiário distribuído ou “buzinado” por assessores de comunicação da Fazenda, verifiquem como eles se comportaram como produtores de um espetáculo de mágica.
O presidente Lula certamente não apreciou a tentativa de “mágica”. Embora abertamente aborrecido com a alta taxa de juros imposta pelo Banco Central, ficou ainda mais aborrecido depois que o presidente do BC, Henrique Meirelles, lhe levou a lista dos spreads (diferença entre a taxa paga pelos bancos e as taxas que cobram dos clientes) praticados por cada banco. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, ambos supervisionados pelo Ministro da Fazenda, estão entre os mais “agiotas” do país. Muita gente no Palácio do Planalto, no PT e outros partidos ligados ao Governo, acha com razão que combater juros altos desse jeito é puro ilusionismo.
E a incrível operação em que o Banco do Brasil comprou 49% das ações do Banco Votorantim? 1. O grupo controlador do BV usou o dinheiro para acertar o balanço e se fundir com a Aracruz. 2. Esta, por sua vez, usou o dinheiro para se livrar de um incômodo acionista e ainda convencer os bancos credores a aceitar um longo acordo para pagamento das diabruras de seu diretor financeiro com derivativos até do trambiqueiro Madoff.
O presidente Lula também não teria gostado dessa criticadíssima ciranda. Quem autorizou o Banco do Brasil a dar um dinheirão sem direito a controle e sem explicar, em momento nenhum, essa operação toda ligadinha? Não é igual aquela em que o mágico mostra uma cartola e cobre-a com um lenço, aí o coelho e depois o lenço desaparecem, como se nada tivesse acontecido?
Uma boa pauta seria levantar como andam as investigações sobre aquele assalto sofrido pelo ministro, no carnaval passado, quando estava na casa de um empresário amigo. Seria interessante verificar se a assessoria de comunicação já pode nos dar uma história completa – com princípio, meio, fim e personagens corretos.
*Milton Coelho da Graça, 78, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.

06-02-09 08:37:33,