Santos pecados

por Léo Quintino Email

Por Vitor Hugo Soares:

Foi uma semana daquelas na velha Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados. Pelo menos três fatos dos últimos cinco dias sinalizam um tempo inimaginável, há menos de duas décadas, difícil de ser vislumbrado até mesmo por imbatíveis visionários da terra - de Gregório de Mattos a Glauber Rocha.

1) No aeroporto de Salvador, 15 visitantes espanhóis foram mandados de volta a Barajas, em Madri, no mesmo avião em que haviam embarcado horas antes. Sem direito sequer a uma visão fugaz do coqueiral de Itapoã, uma medida do Bonfim amarrada no braço, ou uma simples olhada no azul turquesa do mar na orla da cidade ao pôr-do-sol, que enfeitiçou a Secretária de Estado americana, Condoleezza Rice: “É lindo! Eu só sinto ter demorado tanto a vir aqui", confessou a poderosa do governo Bush.

2) No bairro da Graça, oficiais da Justiça e policiais utilizaram chave “micha” para entrar no apartamento habitado pela ex-primeira dama do Estado, Arlete Magalhães. Cumpriam mandado da 14ª Vara de Família - por solicitação da filha Tereza Matta Pires -, de arrolamento de imagens e objetos do acervo de arte sacra deixados por Antonio Carlos Magalhães, até recentemente um dos mais poderosos e temidos vultos das terras baianas e da República brasileira.

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O barulho na portaria do edifício Stella Maris, sob lentes atentas da TV Bahia (um dos focos da desavença), deu ares de escândalo político a uma disputa familiar por herança, com situações dignas de romance de Dostoievski. A deduzir pelas mais recentes iniciativas e reações das partes em litígio, a briga promete lances ainda mais drásticos.

3- Ontem, depois de ter participado na véspera de uma animada roda de samba, cercada de figuras ilustres do poder e das artes na Bahia e na República - Jaques Wagner, Gilberto Gil, Geddel Vieira Lima, Carlinhos Brown, Marta Suplicy e Margareth Menezes, entre outros 100 convivas especiais -, Condoleeza Rice, símbolo da diplomacia internacional do governo de George W. Bush, desfilou faceira na cidade, sem tufões ou marolas, com a fitinha vermelha, cor de Iansã - poderosa orixá dos ventos , raios e trovões - amarrada no pulso direito.

Depois da conversa em Brasília com o presidente Lula, sobre temas delicados e indigestos - terrorismo, narcotráfico e movimentações consideradas explosivas pelo governo Bush nas fronteiras sul-americanas-, Condolleezza partiu para uma esticada mais amena. Um mergulho em busca das raízes de descendente africana de quem sempre acreditou “que Brasil e Estados Unidos em alguns aspectos se parecem mais entre si que quaisquer dois outros países do mundo", segundo revelado na conversa com William Waack.

Horas depois, ela foi conferir de perto sua teoria, em visita ao Pelourinho, um dos marcos da “tradição da grande diáspora européia, latina e africana” (a que ela também se referiu na exclusiva para o Jornal da Globo), e ao auditório da Coelba, onde conheceu projetos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), alguns executados em convênio com o governo estadual do petista Jaques Wagner.

Sinais evidentes dos novos tempos, nesta semana para guardar na memória. Nos Anos 70, a simples referência à sigla USAID, principalmente quando associada ao MEC , gerava nitroglicerina suficiente para detonar gigantescas manifestações de protesto e desconfianças em Salvador, como registrado nos jornais e no livro de memórias “A Força das Coisas", de outra inesquecível ex-visitante da cidade: a francesa Simone de Beauvoir. Ontem, uns quatro gatos pingados da militância estudantil e da CUT chegaram com atraso de mais de meia hora no Terreiro de Jesus para um “protesto contra o imperialismo” e a presença da representante de Bush na Bahia. Condoleezza já estava perto da Base Aérea, a quiõmetros do centro histórico, onde embarcaria para Santiago do Chile.


Apesar da proximidade de assuntos tão extraordinários e sintomáticos, é preciso registrar outra notícia que avalio como das mais impressionantes dos últimos sete dias, esta procedente de Roma. Não o bairro soteropolitano ao pé da colina da Igreja do Bonfim (deixada fora do roteiro de Condoleezza) , famoso também pelas obras de Irmã Dulce e as loucas baladas roqueiras do maluco beleza Raul Seixas.

Refiro-me à cidade do Papa que veste Prada, Bento XVI, e do Vaticano, de onde partiu a decisão de alargar a lista de pecados, segundo comunicado feito na segunda-feira pelo bispo Gianfranco Girotti, diretor do Penitenciário Apostólico, organismo que supervisiona a confissão e as indulgências plenárias da Igreja Católica.

Leio no exemplar do “El País", adquirido na banca do agitado aeroporto de Salvador: se Moisés baixasse hoje do Monte Sinai, duas tábuas seriam insuficientes para plasmar os mandamentos divinos para os católicos. O profeta necessitaria ao menos de uma mais, para inscrever os novos pecados assinalados pelo Vaticano: “consumir drogas, acumular excessiva riqueza, danificar o meio ambiente e fazer experimentos genéticos duvidosos".

Novos pecados e novos pecadores estão por todos os lados, diz o bispo Girotti. Daí a ofensiva de Bento XVI, que não apenas ameaça os desobedientes com imagens aterradoras do Inferno, como assegura: “a casa de Satanás existe, é eterna e está cada vez mais cheia". Apesar da ironia do jornal espanhol, o fato mexe como temores antigos de ateu que acredita em milagres.

Acorda adormecida memória da velha gravura do Inferno cheio de demônios com seus tridentes em brasa, posta em uma moldura e mantida por minha mãe durante anos na parede da sala de jantar, aos olhos de toda a família. Até que ela ouviu pela primeira vez o bispo Helder Câmara em sua pregação libertadora contra a opressão e o medo, que fez o desenho apavorante desaparecer da parede como por milagre.

Sem o bispo de Olinda e Recife, quem nos resgatará agora do medo do Inferno de Bento XVI?

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@ig.com.br

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