Quando uma notícia merece destaque?

por Léo Quintino Email

No Comunique-se, de Bruno Rodrigues*:

Por vezes nos esquecemos das explicações básicas sobre para que serve a web, mas são justamente estas que precisamos tirar da gaveta de quando em quando e espanar a poeira acumulada com o tempo. Veja o benefício da transparência, por exemplo.

Mais do que as outras mídias, a online cria a possibilidade da troca entre quem consome informação e quem produz. O que já nos parece tão óbvio nem sempre é aproveitado com todo o potencial e como usuários esperam.

Mais que abrir uma janela para receber opiniões, o recurso da interatividade cria, queiramos ou não, a “síndrome do pequeno príncipe": uma vez que o leitor se sente cativado com todas as possibilidades de troca com a equipe editorial do site, cai no colo dos jornalistas a responsabilidade de aguentar o tranco. Em resumo, vira-se alvo rapidamente, seja para críticas ou elogios.

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Por isso, nas últimas semanas a possibilidade - ou compromisso? - da transparência foi posta em cheque à medida que dois acontecimentos se desenrolavam: o falso ataque neonazista à brasileira na Suíça e a excomunhão dos médicos e da mãe da menina de nove anos, grávida, em Pernambuco.

Diferente do que acontecia na televisão e no jornal, em que os fatos chegavam ao final do dia devidamente lapidados e apresentados dentro de uma linha editorial equilibrada em relação às outras notícias, na web o que ocorria era apresentado a conta-gotas e era possível notar claramente os poréns que garantiam destaque ou não nas primeiras páginas dos sites.

Veja o caso da brasileira na Suíça. Nos noticiosos online, a questão começou mais como uma questão de ameaça à soberania nacional do que uma questão de grave violência. Na TV e nos impressos, dourava-se a pílula e a informação chegava menos emocional, mas cautelosa.

Estou longe de achar que o tom emocional da “notícia de agora” que caracteriza a notícia na web seja um ponto negativo; esta maneira de tratar os fatos foi herdada do rádio e ela é um grande diferencial - é a base de uma preciosa persuasão da qual os telejornais e dos “jornais do dia seguinte” se ressentem.

Mas é transparente (e aí chegamos ao ponto) que há muito mais na cabeça dos jornalistas e seus respectivos veículos online do que supomos. A notícia precisa chegar tão ‘emocionalmente lapidada’ a quem recebe a informação através de outras mídias? Ser tendencioso é uma coisa; envolver os fatos em um pouco de emoção e daí criar empatia e persuasão é outra.

Sobre a pobre menina engravidada pelo padrasto, a questão foi diferente. Enquanto a excomunhão era a pauta do dia, os noticiosos online abriam as portas para a opinião dos leitores, que abarrotavam os comentários dos sites com impropérios ou defesas inflamadas sobre a ação do arcebispo de Olinda. Foi a Igreja refutar a ação dom José Cardoso Sobrinho para a questão ter sua hierarquia até mesmo visual - a posição e o tamanho dentro das páginas - rebaixada. O que antes era destaque virou, em pouco tempo, link de “leia ainda” nos sites. Por quê? Era assunto interessante enquanto criava polêmica, e uma vez que a ação foi minimizada, não era chamariz o bastante para o leitor, foi isso?

O usuário nota, porém. Não foram poucos os comentários de leitores que perceberam este “desnível” de destaque em ambas as notícias. Enquanto isso, à noite e no dia seguinte, tv e jornal tratavam os assuntos com o (devido?) distanciamento.

E você, notou esta diferença de tratamento? Já percebeu esta postura com relação a outros fatos jornalísticos?

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*É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, “Webwriting - Pensando o texto para mídia digital", e de sua continuação, “Webwriting - Redação e Informação para a web". Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.

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