Podemos perder a Copa antes da Copa começar

por Léo Quintino Email

Por Almyr Gajardoni:

A edição que está a circular da revista “Transporte Atual”, da Confederação Nacional do Transporte, contém uma sugestiva reportagem preparada por Edson Cruz. Intitulada “Fiel da balança na Copa”, ela assegura: a melhor infra-estrutura de transporte definirá as cidades-sedes do Mundial de Futebol no Brasil, em 2014. A primeira batalha da Copa foi vencida – o Brasil foi escolhido pela Fifa para hospedar a grande disputa. Agora, uma segunda e grande batalha está em curso no país: dezoito cidades candidataram-se para sediar os doze grupos em que serão divididas as seleções participantes. E, de acordo com especialistas que a revista não identifica, a melhor infra-estrutura de transporte definirá as vencedoras.

Em relatório divulgado recentemente, a Comissão de Inspeção da Fifa desqualificou seis cidades: Cuiabá, Campo Grande, Fortaleza, Florianópolis, Rio Branco e Maceió. Aparentemente, não encontrou ali condições sequer para que fossem iniciadas grandes obras que as capacitassem para entrar na disputa. No relatório, a comissão constata que poucas candidatas forneceram informações sobre a quantidade de dinheiro público que será investido em infra-estrutura de transporte. Ponto negativo para todas elas. Com certeza, será preciso gastar muito: na Alemanha, na Copa anterior, gastaram-se R$ 22 bilhões na revitalização de ferrovias, rodovias e aeroportos.

...

Na Alemanha, sabemos todos, existiam antes da Copa ferrovias, rodovias e aeroportos de ótima qualidade, funcionando muito bem. Aqui, onde ainda precisaremos construir boa parte deles, pode-se deduzir que será preciso gastar muito mais. Algumas cidades, aparentemente, estão dispostas. São Paulo e Rio de Janeiro, associadas, andaram a falar num trem-bala que uniria as duas grandes capitais em pouco mais de uma hora, voando a 360 quilômetros por hora. Sabe-se agora que não é bem assim – planeja-se, na verdade, um Trem de Alta Velocidade, que viajará a 180 quilômetros por hora e fará o percurso em razoáveis 2 horas e 20 minutos, incluindo-se algumas paradas intermediárias. Num recente seminário sobre ferrovias, o secretário dos Transportes do Rio de Janeiro, Júlio Lopes, colocou água geladíssima na fervura, estimando que o bólido ferroviário só estará em operação em 2018, quando estará sendo disputada uma outra Copa do Mundo, infelizmente não aqui no Brasil.

Por que a Fifa considera o transporte fator decisivo para escolher a sede da Copa? Simples, enumera Edson Cruz: a mobilidade dos torcedores, muitos deles turistas que permanecem no país após a disputa, é essencial para garantir segurança a contratos fixados nos ingressos e com patrocinadores. Fazer com que o torcedor saia do hotel e vá ao estádio com rapidez, facilidade e segurança, com orientação e sinalização, é item que pode aprovar ou desclassificar uma candidata a sede. E ainda mais: jornalistas de toda parte, representantes da Fifa, árbitros, as próprias seleções disputantes do torneio precisam ir e vir com toda tranqüilidade.

“Transporte Atual” apresenta um interessante e bem analisado rol de obras que estão sendo programadas pelo Brasil afora. Pretende-se construir muita coisa e a revista se permite concluir, com uma boa dose de otimismo: “Se todas as obras prometidas pelos governos estaduais forem realizadas, a herança a ser deixada pela Copa de 2014 será comemorada como uma conquista de mais um título mundial”. Está lá, no começo da frase: se. Ainda que sejam, no entanto, há algo mais a ponderar, que a revista não ponderou, mas a Fifa, com certeza vai ponderar: não basta ter excelentes ferrovias, rodovias e aeroportos. É indispensável que os trens, os ônibus e os aviões que nelas transitam, partam e cheguem com regularidade, nos horários previamente combinados, sem atrasos, sem cancelamentos e, sobretudo, com muitas e boas informações em casos de contratempos.

Ao lado do que a revista chama infra-estrutura de transporte, portanto, precisaremos colocar uma infra-estrutura humana (se é que se pode falar assim) que ainda não temos, capaz de fazer com que trens, ônibus e aviões constituam realmente um eficiente sistema de transporte. O passado e o presente do país, e não apenas dos Estados, mostra que não podemos estar tranqüilos nesse campo. Aliás, a própria revista parece não estar, pois um boxe que acompanha a reportagem principal começa com esta frase preocupante: “Apesar de todo o estardalhaço, o anúncio realizado pela Fifa em outubro passado não garante efetivamente a realização da Copa de 2014 no Brasil. Na verdade, o aceno foi apenas uma formalidade cumprida em um extenso protocolo que deve ser seguido à risca até a bola rolar na partida inaugural. Para o sonho brasileiro virar realidade, todas as promessas dos governos estaduais e federal devem ser cumpridas.”

É ver para crer.

Almyr Gajardoni é jornalista

Sem feedback para esse post ainda

Deixe seu comentário


Seu endereço de e-mail não será revelado nesse site.
(Quebras de linha se tornam <br />)
(For my next comment on this site)
(Allow users to contact me through a message form -- Your email will not be revealed!)