Oposição minimiza referendo e sinaliza divisão da Bolívia

por Léo Quintino Email

Na Folha Online:

A oposição ao governo do presidente da Bolívia, Evo Morales, já começou as articulações em torno do projeto de reforma da Constituição –votado neste domingo (25)– possivelmente aprovado, segundo projeções. Para os opositores, o novo texto tem cunho altamente indigenista e centralizador.

A nova Carta foi aprovada com 80% dos votos, segundo resultados preliminares divulgados pela TV estatal, com 15% contra e 5% em branco. Já levantamento de boca-de-urna da emissora oposicionista Unitel mostra uma vitória do “sim” com margem menor –60% dos votos válidos. Certo da confirmação das projeções de boca-de-urna, Morales dirigiu-se aos governadores e líderes da oposição, convidando-os a somar esforços para a aplicação da nova Constituição.

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Na cidade de Santa Cruz, o governador Rubén Costas, considerado o líder nacional da oposição, disse a uma multidão que “o ‘não’ triunfou porque o projeto queria nos dividir e confrontar os bolivianos". Enquanto a população o aplaudia, Costas destacou que, nos departamentos opositores, venceu “o espírito democrático democrático, para enviar uma mensagem clara, de que somos centenas de milhares de bolivianos do oriente e do ocidente, do norte e do sul, como uma imensa rejeição ao projeto que emana do abuso e da ilegalidade".

Para Costas, a oposição sai fortalecida, pedindo a Morales um pacto “para preservar a unidade, e um pacto para todos” – alertando, no entanto, que isto não será possível se o governo se deixar levar pelo que considera um “triunfo efêmero". A nova Constituição, foi rejeitada amplamente nos Departamentos de Santa Cruz –o mais rico da Bolívia–, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca, onde a governadora já convocou a população a desacatar a legislação de Morales.

“Desacato, desacato, desacato", convocou governadora indígena Cuéllar, em discurso na Prefeitura de Chuquisaca, na praça de Armas da cidade de Sucre, reduto da oposição, onde milhares de pessoas se reuniram para festejar a vitória do “não” neste departamento.

Para analistas, o desacato promovido por Cuéllar pode se reproduzir em outras regiões dominadas pela oposição. Nos Departamentos de La Paz, Oruro, Potosí e Cochabamba, a maioria da população apoiou o novo texto constitucional.

Apuração

A contagem rápida, considerada confiável, é feita com dados oficiais recolhidos nos centros de votação. Os resultados oficiais, no entanto, só devem ser divulgados nos próximos dias pela Corte Nacional Eleitoral, que realiza a contagem dos votos manualmente. Antes da votação, Morales afirmava que seu projeto constitucional seria aprovado com mais de 70% dos votos.

Se a nova Carta for de fato aprovada, a Bolívia realizará eleições presidenciais em dezembro deste ano, nas quais Morales se candidatará à para um novo mandato de cinco anos. De acordo com as projeções, os bolivianos aprovaram também (por 79% contra 21%) um projeto para que as extensões de terras para um proprietário rural não supere os 5.000 hectares – e não 10 mil, como informava a segunda opção.

O governador oposicionista, Mario Cossío, de Tarija, disse neste domingo (25) que, frente aos novos resultados, “não será possível aplicar a Constituição, motivo pelo qual pedimos um pacto nacional que permita elaborar um novo processo constituinte".

Antes do referendo, o ex-vice-presidente Víctor Hugo Cárdenas – indígena como Morales e forte opositor do governo– afirmou que “se o ’sim’ não conseguir triunfar nos nove departamentos da Bolívia, [o referendo] será ilegítimo e provocará a divisão” do país. O ex-candidato presidencial da oposição Samuel Doria Medina afirmou que “há cinco departamentos onde o ‘não’ venceu", o que torna a situação do governo complicada, já que Morales terá nas mãos “uma Constituição de minoria".

Antes do referendo, neste domingo, o vice-presidente Alvaro García havia indicado que, por se tratar de “uma eleição nacional, o resultado é nacional, e a maioria manda […]; que acatemos o que diz a lei". A votação transcorreu com calma, tendo sido registrados apenas algumas infrações eleitorais isoladas. Ao todo, 3,89 milhões de eleitores estavam habilitados para votar a favor ou contra a nova Constituição, através da qual Morales espera introduzir grandes mudanças em seu país.

O ministro de governo Interior, Alfredo Rada, afirmou que o domingo foi “uma jornada democrática tranquila e exemplar". Depois da divulgação dos resultados parciais, o presidente Evo Morales proclamou a refundação da Bolívia, tendo anunciado o fim da cultura de latifúndio e do “Estado colonial", que, para ele, se arrastavam há 500 anos no país.

“Agora refundamos a Bolívia (…), aqui termina o Estado colonial, acabou o colonialismo interno e externo. Graças à consciência do povo boliviano, acabou o latifúndio e os terratenentes", disse Morales no balcão do palácio presidencial, na praça de Armas de La Paz.

Manifestação

Em La Paz, departamento onde o projeto constitucional recebeu a maior votação a favor, milhares de pessoas se concentraram na praça de Armas para ouvir o discurso do presidente. Morales afirmou, na ocasião, que a vitória nas urnas é um movimento de “surgimento da nova Bolívia". ” Aqui começa de verdade para levar a igualdade a todos os bolivianos", disse o presidente.

Atos públicos de celebração aconteciam também nos Departamentos de Tarija, Chuquisaca, Pando e Beni, onde seus líderes discursaram de maneira semelhante ao prefeito de Santa Cruz, apelando ao presidente Morales que ouça estas regiões e exigindo um grande pacto social para evitar a divisão irreversível do país.

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