Obra só para o Mickey passar

por Léo Quintino Email

No Tempo, de Thiago Nogueira:

Parte da orla da lagoa Pampulha está sendo desfigurada para receber a Parada Disney - evento internacional que acontece no próximo sábado na avenida Otacílio Negrão de Lima, entre o Parque Ecológico da Pampulha e o Iate Tênis Clube. Desde o último 20, canteiros centrais, gramados, rotatórias, calçadas e quebra-molas começaram a ser destruídos. O objetivo é dar passagem aos grandes carros alegóricos de Mickey Mouse e companhia.

Árvores também estão sendo podadas e parte da sinalização de trânsito já foi retirada. As modificações no entorno da Pampulha têm revoltado moradores e associações de bairro. “Enquanto o Pato Donald e o Mickey chegam aqui com interesses econômicos, nós fazemos o papel de patetas", ironizou o morador Antônio Carlos Carone, membro da Associação Pró-Interesses do Bairro Bandeirantes.

...

“Os moradores não estão contra a parada. Nós estamos incomodados por causa da má administração dos bens públicos. Belo Horizonte tem outros locais que poderiam receber o evento, onde seriam desnecessário intervenções", ressaltou a presidente da Associação Pró-Civitas dos bairros São Luiz e São José, Juliana Renault Vaz. A associação promete protocolar hoje um reclamação no Ministério Público.

Cuidados. O secretário da regional Pampulha, Osmando Pereira, disse que todas as providências estão sendo tomadas para valorizar o evento cultural e minimizar os impactos na região. “Inclusive, negociamos com os promotores que não trouxessem carros acima de 7,5 m. As alegorias são largas, mas elas terão apenas 5 m.", explicou o secretário.

Segundo a regional, tudo o que foi modificado começará a ser reconstruído na segunda-feira. As ações serão realizadas pelos operários da prefeitura. Contudo, taxas municipais serão cobradas pelo serviço. O secretário não soube informar o valor dos gastos e das taxas.

Osmando Pereira não concorda que o projeto urbanístico da Pampulha será desconfigurado. “Se isso fosse ocorrer, não iríamos permitir que a parada acontecesse. As podas nas árvores, por exemplo, já seriam necessárias. Na última chuva de granizo, precisamos fazer algumas intervenções. As podas são infinitamente inferiores aos problemas por causa da chuva", alegou o secretário.

A assessoria de imprensa da Nestlé - responsável pelo evento no país - informou apenas que as obras de intervenção da via são de responsabilidade da prefeitura municipal. Informada pela reportagem de O TEMPO sobre as modificações na lagoa para a parada, a assessoria de imprensa da Disney no Brasil não enviou um comunicado oficial até o fechamento desta edição.

“Será um sonho para muitos mineiros", diz governador

A Parada Disney é um evento que tem a direção artística supervisionada pela The Walt Disney Company, conglomerado americano de mídia e entretenimento. O evento tem o patrocínio da empresa de alimentos Nestlé, apoiado pela Prefeitura de Belo Horizonte e o Governo de Minas. O desfile será no sábado e começa às 16h.

O evento acontece pela quarta vez no Brasil. Nas outras paradas, Mickey Mouse e companhia desfilaram em Vila Velha (ES) e nas capitais paulista e carioca. Serão cinco carros alegóricos e seis veículos que percorrerão 2 km da orla.

“Será um sonho realizado para muitos mineiros que não têm a chance de viajar até os Estados Unidos", disse o governador Aécio Neves, na semana passada, durante encontro com o presidente da Nestlé, Ivan Zurita.

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Tradição. A lagoa da Pampulha é famosa por receber eventos esportivos; as provas de atletismo são as mais comuns

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Poluição. A Copasa promete despoliar a lagoa da Pampulha até 2012, dois anos antes da Copa
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1 comentário

Comentário de: saulo sabino [Visitante]
saulo sabinoParada Disney na orla da Lagoa da Pampulha ou Manda quem pode e obedece quem tem juízo.


Por Saulo Sabino, morador da Região da Pampulha



Nada – a não ser nenhum interesse meu – contra o desfile de Michey Mouse e Pato Donald em Belo Horizonte.
Tudo contra a falta de apego ao bem público de quem deveria zelar por ele, no caso a Regional Pampulha e em última (ou seria em primeira ?) instância, a prefeitura, permitindo e rapidamente se colocando no papel de facilitadora das exigências do evento.
Para quem não viu: suprimiram árvores enormes na orla, arrancaram a trator passeios de grama, retiraram sinais de trânsito e – pasmem – montaram um bunker de aço em torno da Praça São Francisco, instalando um quartel com vigilantes e tudo, como se fosse preciso resguardar os generais do evento dos olhos do povo (a praça não é do povo, assim como o céu é do Condor?). Doce ilusão a minha imaginar que não detonariam qualquer coisa em seu caminho para satisfazer ou não comprometer o evento.
Aliás, o patrocinador, no caso da Nestlé, tem conhecimento que em plena era de aquecimento global e replantio de árvores para captura de carbono no mundo todo, estão mutilando o cartão postal de Belo Horizonte para dar passagem ao Pateta?
Certamente, como em muitos outros casos, a população lá estará, em peso, desconhecendo as sujeiras (ou, no caso da derrubada e poda indiscriminada de árvores da orla, limpeza, conforme contra-argumentou o responsável da Regional Pampulha), que foram cometidas para que aquilo acontecesse.
Tudo isso, para mim, parece tão anacrônico como podar árvores e suprimir áreas de grama no Central Park para, por exemplo, passagem de trios elétricos da Bahia.
Mas, convenhamos, ainda temos muito que crescer para espantar e enfrentar colonialismos e subserviências culturais.
Finalmente, um toque de sutileza e hipocrisia do poder público: presenciei os tratores arrancando grandes fatias do passeio de grama, enquanto – observem a sutileza e o desrespeito com a inteligência do belorizontino – colocavam placas onde se lê: “trabalho de drenagem”. Ora, senhores que mandam e desmandam em BH, arrancando árvores desnecessárias ao simples pedido de moradores incomodados com folhas caindo no chão e não monitoram aquelas que eventualmente podem cair de velhas, poupem-nos, pelo menos, dessa amarga ironia: resolveram fazer um serviço de drenagem arrancando, convenientemente, partes dos passeios de grama que não dariam passagem aos enormes carros da Disney, justamente três dias antes do evento ? Poupem-nos de ter que aguentar essa hipocrisia, além do dano imposto. Vocês irão refazer o estrago depois? Com dinheiro público? Qual o próximo passo? Espero tudo da subserviência de quem decide o espaço público em Belo Horizonte.
Estou indignado, mas não estou surpreso.
Pêsames à prefeitura por permitir tal coisa, pêsames à patrocinadora por não impor regras ao patrocinado, pêsames à população que desconhece que a Pampulha é de todos, menos dos carros da Disney. Ah, pêsames também à Disney, se sabe ou se não sabe o que acontece por sua conta. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

25-03-10 @ 14:06

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