Obama x Hillary: pesquisas e lágrimas
por Léo Quintino
Por Vitor Hugo Soares:
A política é como crochê: não se pode dar ponto errado sob pena de ter de começar tudo de novo. A frase do ex-presidente Itamar Franco, sobre os insondáveis caminhos do poder e o jeito mineiro de disputar eleições, bem poderia ajudar na enxurrada de explicações dos analistas, de mais de 10 institutos de pesquisa dos Estados Unidos, que falharam rotundamente ao prever vitória disparada de Barack Obama contra Hillary Clinton, esta semana, na primária do Partido Democrata, em New Hampshire.
“Urna é o diabo”, dizem também mineiros e baianos. Este, talvez, seja o melhor ensinamento para quem busca explicações sobre o que anda se passando nesta corrida de 2008, para a Casa Branca - a mais cara, renhida e interessante das últimas décadas na terra de Malboro. Depois da literalmente chorada vitória de Hillary no estado do granito, lances ainda mais emocionantes e polêmicos parecem guardados - para democratas e republicanos - até se definir quem, de costa a costa, “tem de fato farinha para vender”, como pregava o gaúcho Leonel Brizola.
...
Minha irmã, especialista em eleições nos Estados Unidos, - ela reside no estado da Califórnia , tradicional bastião liberal dos democratas dominado ultimamente pelo grandalhão governador republicano Arnold Schuwarzenegger - me avisou há mais de um ano: “Se prepare para surpresas, porque os Estados Unidos terão desta vez uma eleição como raramente se viu por aqui”.
A advogada Regina Soares, que trabalha há mais de 30 anos no Condado de San Diego na preparação e realização de pleitos locais, regionais e nacionais deu o primeiro toque ao jornalista. Então, o jovem senador de Ilinois, Barack Obama, mal começava a se insinuar no horizonte como provável postulante à sucessão de George W. Bush, e estava ainda distante de virar a pedra no sapato de Hillary em que se transformou.
Passei a dica imediatamente ao editor de internacional do jornal onde trabalhava, anotei-a também - mentalmente e no maço de papeis que sempre carrego nos bolsos – e, desde então, comecei a observar mais atentamente o discurso, os passos políticos e o comportamento pessoal do jovem senador negro, magro e de nome nada convencional para os padrões conservadores do império: Barack Hussein Obama.
Fiquei sabendo depois que o fenômeno político em ascensão, de nome árabe, é filho de pai queniano, mãe do Kansas, crescido no Havaí, educado na Indonésia e formado em Harvard - a universidade de Boston, capital do sofisticado estado de Massachutess - nirvana acadêmico de yankees, gregos e baianos.
Portanto, Barack Obama “é a encarnação do sonho americano, numa época em que já poucos pareciam acreditar que ele continuasse a existir”, como sintetizou o jornalista português João Miguel Tavares, do Diário de Notícias, ainda aparentemente embriagado do entusiasmo quase geral e incontido, despertado pelo triunfo do senador democrata nas primárias de Iowa, principalmente em alguns arraiais da mídia americana e periferia.
A euforia que se apoderou primeiro principalmente dos mais jovens eleitores democratas – provavelmente esperançosos de viver experiências políticas mais excitantes e liberais, semelhantes às que pais e tios lhes contam sobre os anos 60 e adjacências . Eles são apontados como motor de propulsão do fenômeno Obama, apesar da derrota de New Hampshire, onde tudo dava a falsa impressão de ser favas contadas.
Afinal de contas, pelo menos 13 pesquisas, de diferentes institutos, davam 10 ou mais pontos percentuais de frente de Obama sobre Hillary. A da CNN, por exemplo, que leu corretamente os números dos republicanos, errou feio em relação aos democratas.
“Barack é uma injeção de otimismo capaz de empurrar para as mesas de votos mesmo quem tinha jurado não voltar a sair de casa”, disse o analista do diário português, expressando, em Lisboa, a Obamania que as pesquisas pareciam detectar em Hampshire na véspera da primária, e ajudavam a propagar para outras regiões dos EUA e do resto do planeta.
Mas o tinhoso que costuma se meter nas urnas, nas províncias de Minas e da Bahia, decidiu fazer das suas também lá pras bandas do império, e embaralhar o jogo. Contra todos os prognósticos, foi Hillary quem saiu da segunda primária esfuziante e sorridente ao lado do marido Bill, depois de derramar lágrima furtiva de desalento em um botequim em Portsmouth na véspera da votação, dando a impressão – autêntica ou planejada? – de que estava arriando as bandeiras e entregando os pontos.
A imagem de uma Hillary Clinton vulnerável, marcada pela emoção que apareceu de repente no rosto da dama de ferro loura, gélida, cheia de certezas e arrogante, que até então buscava a indicação do partido para disputar o posto do republicano Bush na Casa Branca, motivou outro fenômeno rápido e avassalador: a arregimentação das mulheres acima dos 40 anos, cujos votos garantiram a Hillary a vitória em New Hampshire, decisiva para os próximos passos da senadora por Nova Iorque na ferrenha contenda que trava com Obama e sua legião de jovens.
Vencido em New Hampshire por pouco mais de sete mil votos, Obama mantém altas as suas esperanças e possibilidades para as próximas etapas, mas agora terá que saber lidar com a derrota inesperada que sofreu. Além disso, Hillary Clinton dada prematuramente como morta, acaba de ressuscitar politicamente e recuperar fôlego e aspirações para chegar à indicação de seu partido como candidata à presidência.
As próximas primárias começam por Nevada, dia 19, até desembocar na super- terça, em 5 de fevereiro, quando mais de 20 estados farão suas primárias, entre eles alguns dos mais importantes e decisivos como Nova Iorque e Califórnia. Jogo empatado, façam suas apostas que a decisão promete…
Vitor Hugo Soares é jornalista (e-mail: vitors.h@uol.com)

13-01-08 16:21:05,