O Brasil está longe da situação ideal
por Léo Quintino
Por Murillo de Aragão:
O aquecimento da economia e o acúmulo de reservas em volume inédito, além da expressiva redução da pobreza, aumento do consumo das classes populares e venda de bens duráveis em patamares robustos dão a impressão de que estamos bem. Para alguns, muito bem. Não é verdade. Antes de mais nada, os piores erros são cometidos quando se tem a sensação de que tudo está bem. Em especial, em um Brasil acostumado a fazer o trabalho duro apenas quando as labaredas das crises lambem os fundilhos preguiçosos de nossos governos. Enfim, o sucesso é paralisante. Inebriante. Faz com que percamos a noção do perigo. É o nosso caso.
O Brasil está emparedado entre a complacência e o desastre, e não se deu conta disso. Caso dê tudo errado no mundo, poderemos caminhar para uma situação de retração brutal de investimentos, elevada volatilidade e migrações súbitas de fluxos de investimento. Se, ao contrário, tudo der certo, o Brasil pode ser beneficiado. No entanto, não podemos nos comportar como passageiros da crise, esperando o que pode acontecer. É hora de o governo e as lideranças sindicais e empresariais tomarem exata noção dos riscos que corremos.
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Lamentavelmente, o mundo político continua olhando para o próprio umbigo, disputando verbas, cargos e temas espetaculosos que podem gerar CPIs e investigações. Infelizmente, a crise global e as fragilidades do Brasil são muito mais importantes e não têm merecido a devida atenção.
A experiência indica que toda crise traz grandes oportunidades. Pelo simples fato de que elas são indutoras de mudanças de comportamento. Assim, no momento em que os Estados Unidos estão no corner por causa dos problemas iniciados com o “subprime", o Brasil poderia dar passos decisivos para fortalecer sua blindagem com relação às turbulências mundiais. E ainda por cima ampliar as oportunidades para assegurar cada vez mais investimentos privados.
Existe uma agenda no Congresso Nacional que anda a passos erráticos e poderia, neste momento, ser recuperada e aprovada como demonstração de aperfeiçoamento inconteste de nossos marcos regulatório e jurídico. Dela fazem parte os seguintes itens: nova Lei do Gás Natural, projeto de Lei da Defesa da Concorrência, cadastro positivo, novas regras para as agências regulatórias, desoneração da folha de pagamento e, obviamente, a Reforma Tributária.
A aprovação dos projetos de lei mencionados trariam benefícios significativos. No âmbito burocrático, os governos federal, estadual e municipal deveriam fazer um acordo visando reduzir as exigências burocráticas para a abertura de empresas. Apesar de alguns avanços, o Brasil continua em posição incômoda entre os países mais burocratizados do mundo.
No Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, do qual faço parte, vou propor a criação de um Grupo de Trabalho voltado para a melhoria do ambiente de investimentos e empregos no Brasil. A iniciativa visa tomar um rol de iniciativas administrativas e legislativas que possam ser adotadas a curto, médio e longo prazos com o objetivo de potencializar o bom momento econômico do país e ampliar a espessura de nossa blindagem diante das turbulências do sistema financeiro internacional.
No momento, o que vemos é um debate centrado em três aspectos: a política cambial, a política monetária e a Reforma Tributária. Na visão da burocracia federal, o foco é o gasto público por meio do PAC. É um receituário limitado para o tamanho do desafio que temos de enfrentar. A crise não é, ainda, equivalente ao crash de 1929. Porém, o temor de que permaneça por vários meses é fundado. O Brasil deveria acordar e aproveitar o momento para fortalecer suas defesas e aperfeiçoar suas instituições.
Murillo de Aragão é mestre em ciência política, doutor em sociologia pela UnB e presidente da Arko Advice – Análise Política.

29-03-08 21:17:26,