O artista e a cafetina
por Léo Quintino
Por Vitor Hugo Soares:
Na semana de caça da imprensa à garota de programa capixaba em seu retorno ao Brasil como celebridade - depois de ajudar a implodir a carreira política de um farsante em Nova Iorque -, o que mais me tocou foi uma matéria prosaica que vi na televisão. Assunto: mendigos nas ruas de São Paulo. Gente sem teto e sem rumo na maior cidade da América do Sul.
Pauta óbvia de toda Quaresma, até surgir na telinha um personagem surpreendente: cabelos encanecidos, rosto vincado pela miséria, corpo destroçado pelo álcool, violão debaixo do braço. Depois da entrevista, pega o instrumento e canta uma música de sua autoria: “é a camisa 10 da Seleção". A ficha cai: reconheço Hélio Matheus, músico e compositor fora de série da Jovem Guarda e da MPB. Aos 68 anos, na terra desmemoriada e predatória de seus ídolos, o artista carioca desce o despenhadeiro do esquecimento.
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Aprendi na redação do velho e glorioso Jornal do Brasil, com o editor Nacional e mestre saudoso, Juarez Bahia (seis prêmios Esso e um dos currículos mais ricos e brilhantes do jornalismo brasileiro): os assuntos dos diários quase não mudam, salvo em casos raríssimos. As notícias são praticamente as mesmas, todos os dias, em todos os veículos. “Para constatar, abra os jornais de hoje ou observe os noticiários da TV", dizia Bahia, há mais de 30 anos.
Com a globalização e a Internet, tudo parece ainda mais igual e previsível. Com as exceções de praxe, como a matéria da “Folha de S. Paulo", na edição de ontem, sobre o “dossiê” de gastos sigilosos com cartões corporativos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira dama, Ruth Cardoso, que teria sido produzido nas sombras pela Secretária-Executiva da Casa Civil da Presidência da República, Erenice Alves Guerra , braço direito e, a partir de agora, assombração da ministra Dilma Rousseff.
Mas o personagem central destas linhas não é a capixaba Andréia, nem a gaúcha Dilma, e sim o artista carioca Hélio Matheus. Antes disso, outra rápida passagem pelos ensinamentos do baiano de Feira de Santana, Juarez Bahia. Para ele, a diferença das notícias estava no enfoque. No olhar jornalístico particular ou exclusivo que desperta o interesse pela informação, ou na burocrática preguiça profissional que leva à indiferença. Um personagem marcante, um texto vivo, uma imagem expressiva faz o leitor ou telespectador gritar com entusiasmo: “Isto é jornalismo de verdade"! . A mesmice, ao contrário, o faz enterrar-se na poltrona, com vergonha.
Infelizmente, ao contrário da cobertura da volta triunfal da garota de programa, festival de equívocos e exibicionismo provinciano de repercussão raramente visto na imprensa brasileira, a presença pungente do artista carioca na reportagem dos mendigos de São Paulo, no “Jornal da Record", passou batida. Só repercutiu brevemente em outra curta matéria na Band News. Logo o assunto caiu no esquecimento, como a vida e o destino de Matheus.
“Sem memória não somos nada", diz o cineasta espanhol Luiz Buñuel no livro “Meu último Suspiro". Assim, lembro de Hélio Gonçalves Matheus, nascido em 05 de julho de 1940, no popular bairro carioca da Penha. Compositor, intérprete, versionista de primeira linha, produtor musical, professor de violão, diretor de estúdio. HM, talento precoce, que aos 10 anos compunha a sua primeira música: “Meu amor".
Quem, em outro lugar do mundo além desta banda dos trópicos sem memória, poderia esquecer da noite histórica para a MPB em 1970, em que a cantora Ellis Regina abriu e fechou a sua apresentação no Canecão, no Rio de Janeiro, interpretando “Comunicação", a composição de Matheus, em parceria com Edinho (Edson Guimarães), terceiro lugar no Festival da Música Popular Brasileira? Ou de Wanderléa, em 1973, quando a musa da Jovem Guarda lançou “Kriôla", outro grande sucesso de Hélio?
O compositor foi recebido por Elis em seu camarim. A musa da MPB brincou com a cabeleira do roqueiro e convidou Hélio para ir à sua casa. Nas duas vezes que tentou, o compositor deu com a cara na porta. Mas já estava inserido no paraíso da MPB, sem perder o espaço de honra que já detinha na Jovem Guarda há mais tempo, depois de ter bebido a sopa do Solar da Fossa, no Rio de Janeiro, e comido o pão da pensão da Rua Conselheiro Brotero, onde recebeu do hóspede baiano,Tom Zé, as primeiras lições de sobrevivência na Paulicéia.
Contratado pela RCA Victor, o artista lança seu primeiro e antológico disco-solo: “Matheus Segundo Matheus". Fernando Tucori cita a letra da inédita “Livro Aberto", para sintetizar em perfil do artista: “A vida de Hélio tem tantas páginas que não dá para contar". Em resumo, o fato é que em maio de 2007, ele reaparece no palco da peça “Crepúsculo", encenada pela Velha Companhia no espaço do Grupo XXI de Teatro, na Vila Maria.
Aos 67 anos, de moleton azul claro, alquebrado, anuncia : “Vou começar com ‘Camisa 10′, meu maior sucesso, e se vocês quiserem cantar junto, seria melhor". Logo todo mundo faz coro com o artista: “Rock do Rato", “Comunicação", “Kriôla"… Duas jovens da platéia choram de emoção. Como imagino aconteceu com muito mais gente - inclusive na Bahia, posso garantir - quando na matéria dos mendigos de São Paulo, Hélio Matheus apareceu na TV e puxou os primeiros acordes de sua mais famosa canção.
Que País!
Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@ig.com.br

29-03-08 21:11:37,