'O senhor está denegrindo a imagem do Brasil'

por Léo Quintino Email

No Comunique-se, de Antonio Brasil*:

Jamais esqueci esta acusação. Eram os anos de chumbo no Brasil. Trabalhava como correspondente estrangeiro em meu próprio país. Pautava, produzia e enviava matérias sobre o Brasil para a Worldwide TV News, WTN, a principal agência de notícias internacionais para a TV durante nos anos 1980 e 1990.

Era um trabalho difícil e delicado. Pela primeira vez uma agência internacional de notícias para TV contratava um brasileiro para cobrir o Brasil. As pressões e tensões eram enormes. Havia grande interesse pelos assuntos brasileiros no noticiário internacional. Mas todas as matérias que saiam do Brasil para o exterior eram submetidas a alguma forma de controle ou censura.

Tínhamos somente duas alternativas para enviar matérias para o exterior. Via satélite, através das televisões locais como a Globo e submetidas ao controle dos editores da emissora, ou exportadas como “carga com conteúdo jornalístico” via aeroportos internacionais.

...

Em janeiro de 1984, ao tentar enviar uma extensa matéria sobre o início da campanha pelas Diretas Já em São Paulo, fui surpreendido pela decisão do censor de plantão no Aeroporto do Galeão: “Não posso autorizar a exportação desta matéria. O senhor está denegrindo a imagem do Brasil.” Corte rápido para minha expressão de surpresa, decepção e espanto.

Toda a situação era absurda e se repetiu em diversas ocasiões. Eram tempos absurdos no Brasil. Qualquer deslize ou dúvida, principalmente em questões relacionadas ao “patriotismo”, eram punidos exemplarmente. Ainda mais para um correspondente brasileiro com nome de Brasil que trabalhava para estrangeiros. Situação difícil e delicada. Ainda mais em tempos de ditadura. Havia grande interesse de controlar ou manipular as notícias sobre o Brasil que veiculavam no exterior.

Racismo

Muitos jornalistas brasileiros e estrangeiros eram acusados de fazer campanhas no exterior contra a imagem do Brasil. Na perspectiva dos donos do poder, o país se confundia com o governo que se confundia com os militares que se confundia com o Brasil. Não faltavam pressões, ameaças e algumas tentativas de influenciar ou “comprar” a boa vontade dos correspondentes ou dos editores internacionais.

Mas a escolha daquela expressão em particular, “denegrir a imagem do Brasil”, tornava aquela situação ainda mais simbólica. A escolha da palavra “denegrir” era particularmente infeliz.

O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa registra o verbo denegrir, “atribuindo-lhe sentidos de tornar negro, escuro, infamar, manchar, macular”.
A escolha do termo “denegrir” refletia a escuridão reinante no país ou era uma expressão racista?

Para o Prof. Jarbas Nascimento da Faculdade de Administração Zumbi Palmares da USP, em excelente artigo sobre o tema (ver aqui), trata-se de escolha essencialmente racista. “É o caso do verbo denegrir que, dada a sua etimologia e conseqüente institucionalização em território nacional, pode ferir a identidade do negro brasileiro…na medida em que recobre conteúdo interpretativo, aberto à negatividade: escuro ( sombrio, tenebroso, tristonho), infamar ( tornar infame, desonrado), manchar ( sujar, enodar ), macular ( sujar ).”

Afinal, como um jornalista pode ser acusado de “denegrir” a imagem do Brasil? Quem decide o que piora ou melhora a imagem do nosso país no exterior? Afinal, o que é essa tal de imagem do Brasil no exterior? Ela seria diferente daquela que temos de nós mesmos aqui no Brasil? É possível controlar, manipular ou comprar essa imagem?

Imagem-miragem

Pois essas serão as perguntas que tentaremos responder em palestra sobre a “Construção da Imagem do Brasil pelos Jornalistas Internacionais” que acontece na próxima segunda- feira, 30/03, às 10horas no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRJ no Museu Nacional na Quinta da Boa Vista do Rio de Janeiro.

A partir de incidentes polêmicos como a “quase” expulsão do correspondente do New York Times no Brasil, Larry Rohter em 2004, campanhas do Ministério de Relações Exteriores para influenciar editores internacionais e as recentes campanhas da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, vamos discutir se é mesmo possível denegrir ou melhorar a imagem do Brasil no exterior.

Aproveito para adiantar algumas dos principais dados e conclusões da pesquisa:

“A construção da imagem de um país e de seu povo é considerada um produto intangível, pois está associado à percepção de cada audiência…Eve ntualmente, alguns incidentes isolados e de natureza conjuntural provocam abordagens negativas por parte da imprensa em geral. Entretanto, atento à repercussão que tais incidentes possam promover, várias informações e esclarecimentos são permanentemente disponibilizados para os correspondentes estrangeiros e jornalistas interessados, com vistas a minimizar os efeitos que aqueles incidentes possam causar à imagem do País. Programa Divulgação do Brasil no Exterior, MRE em 2002.
Ver aqui.

“Em face de reportagem leviana, mentirosa e ofensiva à honra do Presidente da República Federativa do Brasil, com grave prejuízo à imagem do país no exterior, publicada na edição de 9 de maio passado do jornal The New York Times, o Ministério da Justiça considera, nos termos do artigo 26 da Lei nº 6.815, inconveniente a presença em território nacional do autor do referido texto. Nessas condições, determinou o cancelamento do visto temporário do sr.William Larry Rohter Junior".

“Secom quer mostrar o “Brasil verdadeiro”. A CDN – Companhia de Notícias vai cuidar da imagem do Brasil no exterior, com o contrato de um ano, no valor de R$ 15 milhões assinado com a Secretaria de Comunição da Presidência da República, Secom. Ver aqui.

“A imagem do Brasil no exterior não é tão ruim como a maioria das pessoas pensa. Acho que o Brasil teve muitos avanços nos últimos 10 anos: o peso político do Brasil no cenário internacional é muito maior agora do que antes… Mas isso tudo coexiste com a idéia do estereótipo”. Ana Maria Geres, correspondente da agência EFE – Espanha

“Nenhuma imagem é inocente” André Gazut

Essas notícias e reflexões fazem parte da nossa pesquisa que aproxima a Antropologia do Jornalismo em um novo campo de conhecimento que chamamos de Antropojornalismo. O objetivo é utilizar o rigor e profundidade das pesquisas etnográficas em investigações jornalísticas. Em muitos aspectos o trabalho do antropólogo e do correspondente internacional se encontra e se assemelha.

A pesquisa também indica que há enormes dificuldades na utilização do conceito de imagem para identificar representações nacionais.

O principal problema é que as imagens não são necessariamente “verdades”. As imagens não são mais do que… imagens. Elas pertencem a um discurso mítico, polissêmico e incontrolável.

A imagem do Brasil, assim como a imagem de qualquer outro país pertence ao universo do imaginário. Pode ser uma construção intencional de viajantes, escritores ou jornalistas. Mas também poder ser o produto da nossa auto-imagem. Os correspondentes e editores internacionais simplesmente replicam e adicionam valor às nossas próprias visões do Brasil.

Talvez essa “Imagem do Brasil” não passe de mera ilusão ou uma “miragem”.

*É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Atualmente, faz nova pesquisa de pós-doutorado em Antropologia no PPGAS do Museu Nacional da UFRJ sobre a “Construção da Imagem do Brasil no Exterior pelas agências e correspondentes internacionais". Trabalhou na Rede Globo no Rio de Janeiro e no escritório da TV Globo em Londres. Foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. É responsável pela implantação da TV UERJ online, a primeira TV universitária brasileira com programação regular e ao vivo na Internet. Este projeto recebeu a Prêmio Luiz Beltrão da INTERCOM em 2002 e menção honrosa no Prêmio Top Com Awards de 2007. Autor de diversos livros, a destacar “Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica", “O Poder das Imagens” da Editora Livraria Ciência Moderna e o recém-lançado “Antimanual de Jornalismo e Comunicação” pela Editora SENAC, São Paulo. É torcedor do Flamengo e ainda adora televisão.

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