Nepotismo e má gestão na UFMG

por Léo Quintino Email

No Estado de Minas, de Bernardino Furtado:

Há mais de 10 anos ocupando postos-chaves no núcleo de poder da universidade mineira, professora Maria Lúcia Malard fez mau uso de recursos públicos e favoreceu três filhos

No dia 2 deste mês, o reitor Ronaldo Tadêu Pena e a vice-reitora Heloísa Starling, da UFMG, assinaram nota oficial dedicada a exaltar as qualidades profissionais e, principalmente, atestar de público a conduta ética da professora Maria Lúcia Malard. Sabe-se agora, contudo, que a servidora, que vem monopolizando há mais de 10 anos os projetos arquitetônicos de obras da universidade e ocupando postos-chaves no núcleo de poder da instituição, como o de presidente do Conselho Curador da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), o verdadeiro caixa da UFMG, tem a trajetória marcada pelo nepotismo, pelo favorecimento pessoal, pela má gestão de recursos públicos e pelo desrespeito à democracia interna. Essa história pode ser resumida nas facilidades concedidas aos três filhos da arquiteta, Humberto, Gabriel e Pedro.

Além de ter assento no Conselho Universitário, na congregação da sua escola e, por cinco anos, no Conselho Curador da Fundep, dar aulas, orientar teses e assinar muitos projetos arquitetônicos, Maria Lúcia Malard coordena o Escritório Virtual de Arquitetura (EVA) e o Ambiente de Imersão Virtual de Tecnologia Simplicada (Aivits), da Escola de Arquitetura da UFMG. Nesses laboratórios está contratado, desde 2005, Humberto Malard Monteiro.

Graduado em psicologia pela PUC Minas, com mestrado na Escola de Engenharia da UFMG na área de ergonomia, Humberto anotou no currículo, atualizado em setembro de 2008, a função de coordenador de projeto de pesquisa no Aivits com conclusão prevista para 2010. Também registrou ter trabalhado de 2006 a 2008, como bolsista, no Residencial Serra Verde (RSV). Trata-se de projeto de pesquisa custeado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do governo federal, tendo a Fundep como conveniada e o Departamento de Projetos da Escola de Arquitetura da UFMG como executor. Maria Lúcia Malard é a coordenadora do projeto. Em parte do período em que o filho foi bolsista do RSV, ela era a presidente do Conselho Curador da Fundep.

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O residencial é um conjunto habitacional popular inacabado que está com orçamento e cronograma bastante estourados. Em seu currículo, Humberto esclareceu que sua função era acompanhar e orientar os trabalhadores no canteiro de obra em situação real de trabalho. Anotou uma jornada de 30 horas por semana. Atualmente responsável pelo almoxarifado da obra e futuro morador do conjunto, Geraldo Carlos Alves Pereira diz que acompanha diariamente os trabalhos desde o início das fundações, mas não conheceu Humberto, nem mesmo pelo apelido de Beto.

PÓS-DOUTORADO SEM TÍTULO DE DOUTOR

Num episódio em que, pelos documentos oficiais disponíveis, não é possível constatar a interferência da mãe, Pedro Malard Monteiro conseguiu no fim do ano passado recomendação da UFMG para bolsa de pós-doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas (Fapemig) sem ter título de doutor reconhecido pela universidade. A recomendação do projeto de pesquisa de Pedro foi aprovada pelo Colegiado da Pós-graduação em Estudos Literários (Pós-Lit) da Faculdade de Letras (Fale) na última reunião de 2008, realizada em 4 de novembro. Mais precisamente, a decisão consistiu em aprovar solicitação do professor Julio Cesar Jeha, coordenador do colegiado, que assumiu também a condição de supervisor da pesquisa do filho de Maria Lúcia Malard.

Ao Estado de Minas, Jeha disse acreditar na regularidade da recomendação, até porque foi aceita pela Fapemig. De fato, na página da fundação na internet, Pedro Malard aparece aprovado com bolsa de R$ 2.618,56 mensais, no período de 1º de novembro de 2008 a 31 de outubro de 2009. A Fapemig é, em boa parte, sustentada com recursos públicos do governo mineiro e tem um conselho formado por representantes das principais universidades instaladas no estado, inclusive a UFMG.

A recomendação para o programa de pós-doutorado júnior da Fapemig é intrigante porque, meses antes, o mesmo Colegiado do Pós-Lit-Fale negou pedido de Pedro Malard para reconhecimento de um doutorado que concluiu em 2006 na State University of New York (Suny), em Albany. Pedro se graduou em letras pela UFMG em 1999 e não fez mestrado.

O caso está registrado nas atas das reuniões do Colegiado do Pós-Lit-Fale de 12 de março e de 21 de maio de 2008. Na primeira, o colegiado homologou o parecer da professora Eliana Lourenço de Lima Reis, desfavorável ao reconhecimento do título de doutor de filosofia na Suny-Albany com equivalência na UFMG ao título de doutor em letras. Na segunda reunião, a professora Eliana apresentou ao colegiado correspondência (e-mail) encaminhada a ela por Pedro Malard. O conteúdo da mensagem não está descrito na ata. O documento registra apenas que o colegiado tomou conhecimento da correspondência, mas manteve a decisão de não reconhecer o título do interessado.

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