Muita conversa, pouca notícia
por Léo Quintino
Por Almyr Gajardoni:
A badalada entrevista de José Dirceu à revista “Piauí” começa num jantar, onde o entrevistado dá uma rápida olhada no bufê de saladas e recusa a garrafa de vinho oferecida pelo garçom, velho conhecido, como parte do esforço para perder a barriga. E termina num churrasco onde ele, depois de algumas carnes e outra vez saladas, abre uma garrafa final de vinho sobremesa para acompanhar as musses de maracujá e mamão. Aparentemente, a ofensiva contra a barriga estava posta de lado, mesmo porque, ao longo das caudalosas 1.526 linhas da reportagem, são descritas, com mais ou menos detalhes, onze refeições, entre almoços, jantares e cafés da manhã, saboreados numa longuíssima viagem de seis dias, por três países e dois continentes.
Ainda no campo das estatísticas surpreendentes, Lula é citado treze vezes, quase sempre como personagem de algum acontecimento – menos no caso do Lulinha, em que Dirceu afirma ter interpelado diretamente o presidente. O PT, pior ainda, merece dez citações, duas das quais na devastadora afirmação de que a sede do partido no Rio Grande do Sul foi construída com dinheiro do caixa 2. Sobram linhas, portanto, para acompanharmos o atilado consultor em sua visita à afamada loja El Corte Inglês, em Madri, onde comprou camisa, calça, cueca e meias para um pernoite inesperado, provocado pela perda de uma conexão para El Salvador e a falta de disposição para enfrentar quatro horas de espera para recuperar sua mala. Ou, antes disso, seus ingentes esforços para alugar um avião que o levasse ao Panamá, depois a ligação para a secretária, em São Paulo, pedindo a compra imediata de uma passagem que lhe permitisse continuar a viagem – providência também frustrada pela informação de que custaria 3.600 euros.
No dia seguinte, Dirceu chegou ao aeroporto carregando uma sacolinha com a roupa suja. Oportunidade para ficarmos sabendo ser aquela a primeira vez, durante a viagem, em que repetia uma roupa, tendo usado, em quatro dias e meio, dois ternos, quatro camisas sociais, três gravatas, um sobretudo, uma jaqueta de couro, uma calça de veludo, outra de brim, um mocassim, um sapato preto, um tênis, uma camisa jeans, o abrigo de ginástica da CBF, uma bermuda e duas camisetas. Colocadas as coisas dessa forma, pode ficar a impressão de que faltou fôlego político à repórter Daniela Pinheiro, que acompanhou Dirceu nessa maratona de viagens, para fazê-lo comentar e revelar o que todos esperamos.
Não é o caso. Na fila para votar na eleição do novo diretório do PT, Dirceu explicou em detalhes as virtudes do creme feito de placenta, que usa para manter a pele saudável – coisa da milagrosa medicina cubana. Mas nenhuma palavra sobre a vida partidária, as fofocas de sempre, comentários sobre quem perdeu e quem ganhou. Na verdade, parece faltar fôlego ao próprio Dirceu, aparentemente convencido de que a inelegibilidade que vai durar até 2015 pôs fim a sua carreira, ainda mais que o esforço para conquistar uma anistia no Congresso Nacional morreu no nascedouro, sem uma palavra de simpatia do partido de que é, mais do que fundador, um construtor, e do presidente que lhe deve, com certeza, boa parte da vitória que o levou ao comando do país. Com muita sutileza, deixa perceber que só embarcou na negociata do mensalão com os pequenos partidos da base aliada por influência de Lula – pessoalmente, preferia acertar com o PMDB um matrimônio mais estável e seguro. Assim, perdeu o mandato e a carreira por executar o plano que não era seu – e uma vez fora do palácio, viu o presidente adotar o seu, que defendera inutilmente. O mensalão, na verdade, está referido apenas nas derradeiras quatro linhas da matéria, pelas quais ficamos sabendo que seu primeiro depoimento oficial está marcado para o fim de janeiro, na Segunda Vara da Justiça Federal em São Paulo. Nada mais.
Almyr Gajardoni é jornalista

08-01-08 13:23:26,