Greve de ônibus provoca transtornos e prejuízos em BH

por Léo Quintino Email

Mais da metade da população de BH fica sem ônibus na greve dos rodoviários. TRT determina suspensão do movimento sob pena de multa diária de R$ 300 mil

Um caos. A greve dos rodoviários deflagrada no início da madrugada de ontem deixou 1,5 milhão de pessoas sem transporte e vários manifestantes foram presos acusados de depredar coletivos e causar tumulto nas garagens das empresas e nas estações de embarque e desembarque. Milhares de trabalhadores e estudantes não conseguiram chegar ao emprego e às escolas, com prejuízo de R$ 14 milhões à economia da capital. A paralisação dos coletivos sobrecarregou o metrô e quem tinha carro na garagem o levou para as ruas. E o que poderia ser solução para parte da população gerou outro problema: o trânsito parou em todos os grandes corredores, como as avenidas Cristiano Machado, Antônio Carlos, Contorno e Amazonas e a Via Expressa.

O drama da população começou a ser amenizado às 11h, com a liberação gradativa dos coletivos das garagens. À noite, o desembargador Caio Luiz de Almeida Vieira de Melo, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), determinou a suspensão da greve e o bloqueio das contas bancárias do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários em Transporte Coletivo (STTR-BH). Caso o movimento continue, a entidade pagará multa diária de R$ 300 mil e haverá apreensão de veículos que venham a ser usados para bloquear a saída de ônibus das garagens.

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De acordo com o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (Setra-BH), 3 mil ônibus ficaram sem circular ontem, mas 30% da frota já estavam nas ruas às 11h, com os veículos escoltados por carros da Polícia Militar. Isso porque 62 ônibus tiveram vidros quebrados e pneus furados e 13 motoristas e cobradores que tentavam impedir colegas de trabalhar foram detidos. O problema, segundo a entidade, é que só havia segurança nas saídas das garagens. No percurso, manifestantes faziam piquetes, interceptavam os ônibus, obrigavam os passageiros a descer e furavam pneus.

O Sindicato dos Rodoviários informou que 80% dos profissionais cruzaram os braços, com reflexos em cidades da região metropolitana, como Ibirité, Betim, Contagem e Santa Luzia. A categoria reivindica 37% de reajuste salarial e o mesmo percentual no tíquete-refeição, que é de R$ 234 por mês, além da redução da jornada de trabalho diária de seis horas e 20 minutos para seis horas. As empresas oferecem reajuste de 4,35% no salário.

REVOLTA

Nos pontos de ônibus e nas estações do metrô, revolta geral. Na Estação Vilarinho, em Venda Nova, passageiros enfrentaram longas filas para comprar o bilhete, pois apenas um guichê estava aberto. Segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), seus funcionários também não conseguiram chegar ao trabalho por falta de ônibus.

A estoquista Jéssica Alves Pereira, de 19 anos, trabalha no Bairro Prado, na Região Oeste, e ficou irritada com o atendimento no metrô. “Estou há mais de 20 minutos na fila e faltam apenas 30 minutos para o meu horário de trabalho. Eu estava sabendo da greve dos ônibus, só que não esperava problema no metrô. Meu patrão vai trabalhar de carro, mas não adianta justificar meu atraso, porque ele não vai entender.”

Sem carona ou qualquer outra opção de transporte, o segurança Eduardo Maciel Conceição, de 29, esperou horas no ponto de ônibus. “Minha esperança é que ele passe em algum momento. Já liguei quatro vezes para o meu emprego, mas estou muito preocupado. Se descontarem no salário, será muito cruel”, lamentou. No mesmo ponto da Avenida Cristiano Machado, a vendedora Olívia Maria da Silva, de 28, desistiu do ônibus e foi embora: “Meus patrões vão ter de entender. Esperei mais de quatro horas. É muito injusto com os trabalhadores”.

TRIBUNAL

Horas antes da decisão do TRT, o Ministério Público do Trabalho (MPT) divulgou nota informando que havia ajuizado o dissídio coletivo relativo às negociações entre trabalhadores e empregadores do transporte coletivo. “Foi pedido, em caráter liminar, que a Justiça do Trabalho determine à categoria profissional o cumprimento de escala mínima de 50% da frota, a partir de 0h de hoje, sob pena de multa de R$ 30 mil por dia de descumprimento”.

Na petição, o procurador Eduardo Botelho ampara o pedido “na realidade observada nas ruas e nos relatos dos veículos de imprensa, dando conta da paralisação quase total do serviço de transporte coletivo em BH”.

“Compete às entidades sindicais envolvidas garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade” disse o procurador. “Nesse aspecto, como as entidades sindicais envolvidas não lograram ajustar o cumprimento da norma, houve necessidade de requerer a concessão de medida liminar”, acrescentou.

Os demais pedidos são designação de audiência de conciliação na Justiça; não havendo conciliação o prosseguimento regular do feito mediante a intimação das entidades sindicais dos trabalhadores para apresentarem as pautas de reivindicações e, as das empresas, para apresentar a resposta.

De acordo com o procurador, o ajuizamento do dissídio não compromete a rodada de negociação marcada para hoje, às 16h, na Superintendência Regional do Trabalho. “Precisamos assegurar o atendimento mínimo à população. Caso as partes cheguem a um acordo, este poderá ser homologado perante a Justiça do Trabalho”, afirmou Eduardo Botelho.

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