Governo Lula deixa carro elétrico só na promessa

por Léo Quintino Email

No Estado de Minas, de Daniel Camargos:

Se depender do apoio do governo para o desenvolvimento de veículos elétricos e híbridos, os brasileiros terão que continuar esperando. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrará, como tudo indica, sem um programa efetivo para sintonizar essa tecnologia com a de outros locais, como países europeus, Japão e Estados Unidos. Uma linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), órgão de fomento ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), teve uma linha de crédito que incluiu ônibus elétricos durante quatro anos, de 2005 até o fim do ano passado, mas não concedeu nenhum empréstimo.

A alegação do BNDES para o fracasso da linha de crédito, de acordo com a assessoria de imprensa do banco, é que não houve interesse das empresas. Porém, o mercado aponta em outra direção. A diretora da Eletra Industrial, Ieda Maria Oliveira, afirma que tentou o financiamento quando um comprador procurou a empresa, que produz tecnologia, incluindo veículos elétricos e híbridos, para uma compra de 50 ônibus elétricos. Para efetivar o financiamento era necessário operar o crédito via banco comercial, porém nesse ponto surgiu a dificuldade.

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“Consultamos oito bancos, mas nenhum aceitou repassar a linha do BNDES. Acredito que devido ao prazo de carência e financiamento, que eram altos”, lamenta Ieda. Sem o crédito para o comprador o negócio perdeu fôlego e a quantidade inicial, que era de 50 ônibus, caiu para 12. Quando a linha foi lançada, a informação do BNDES era de estimular a “cadeia produtiva a realizar investimentos na produção e na atualização tecnológica”. O discurso era positivo e dizia também que “quanto mais avançados os projetos de racionalização e os modelos de ônibus demandados, melhores são as condições de financiamento oferecidas pelo banco”.

O fracasso da linha ocorre paralelo a um momento em que se discute no país maneiras de incentivar a produção de veículos elétricos e híbridos. Em junho, o Ministério da Fazenda chegou a convocar diversos empresários para anunciar medidas de incentivo, mas quando faltavam poucos minutos o anúncio foi cancelado. À época, várias razões foram atribuídas ao cancelamento, desde lobby dos usineiros, que se sentiram prejudicados com a falta de incentivos para ao álcool combustível, até falta de um estudo mais detalhado do que seria apresentado.

Para o presidente do conselho da Associação Brasileira dos Veículos Elétricos (ABVE), Jayme Buarque de Hollanda, a discussão sobre incentivos é típica de um período de mudança de tecnologia. Na opinião dele, é preciso reduzir a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos e híbridos, que é de 25%. “Quando foi definida, decidiu-se que carros com motores com menor potência (que na teoria poluem menos) teriam uma taxação menor. Porém, nessa época não existia tecnologia elétrica e nem híbrida”, afirma Hollanda.

A Mitsubishi quer vender o i-Miev no Brasil e, inclusive, trouxe uma unidade para testes. Porém, aguarda incentivos, como ocorre nos Estados Unidos. Lá, o preço cheio do modelo é US$ 40 mil, mas com a política de apoio do governo para veículos elétricos teve o valor reduzido para US$ 25 mil. O mesmo ocorre com o Nissan Leaf, que teve o preço reduzido de US$ 32,7 mil para US$ 25,2 mil. Enquanto não há incentivo fiscal, a Prefeitura de São Paulo já anunciou que fará uma parceria com a aliança Renault-Nissan para identificar o que é preciso de estrutura na cidade e usar o modelo na frota oficial. O mesmo acordo já foi feito pela Renault-Nissan com mais de 50 governos.

Seminário

O mesmo BNDES que não financiou nenhum ônibus elétrico na linha que vigorou cinco anos foi palco, em maio deste ano, de um seminário sobre veículos elétricos com 17 apresentações de Fiat, Mitsubishi, Renault-Nissan, General Motors, Magneti Marelli, CPFL, Itaipu, Petrobras, Coope/UFRJ e do Ministério da Ciência e Tecnologia, entre outras. Todas as apresentações convergiam para o mesmo tom: o carro elétrico só dará a partida no Brasil com incentivos do governo. Os seminários serviram de base para o projeto do Ministério da Fazenda que seria apresentado, mas foi cancelado pouco antes da hora marcada.

O sócio diretor da ECCOX Ambiental, João Ricardo Magalhães Gonçalves, estima que o IPI passaria de 25% para a faixa entre 7% e 18%. “Enquanto os veículos convencionais funcionam com a combustão da gasolina, que libera CO2 na atmosfera, os veículos elétricos são alimentados com a recarga constante da bateria, por isso emitem menos gases poluentes”, explica Gonçalves.

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