Ex-refém político defende negociações com as Farc
por Léo Quintino
No Estado de Minas, de Silvio Queiroz:
Ex-governador que passou quase oito anos nas mãos da guerrilha é libertado e faz apelo por conversações de paz entre os militantes e o governo. Alan Jara diz que lutará pelos que ficaram

De boné e abatido, Alan Jara é recebido no aeroporto de Villavicencio pelo filho, Felipe, a mulher, Claudia (D) e pela senadora Córdoba
O primeiro político a ser libertado pela Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) desde que o Exército resgatou a ex-senadora Ingrid Betancourt, no ano passado, em uma operação que expôs a debilidade da guerrilha, fez na chegada uma incisiva defesa da solução negociada para um conflito que se aproxima de completar 50 anos e não tem desfecho militar à vista. “As Farc não estão derrotadas coisa nenhuma", declarou, em breve entrevista no aeroporto de Villavicencio, no Sudeste do país. “Não vejo outra saída que não seja pelas negociações", afirmou.
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A mulher, Claudia Rugeles, e o filho Alan Felipe foram os primeiros a abraçar Alan Jara em Villavicencio, Sudeste da Colômbia, na saída do helicóptero brasileiro que conduziu o político à liberdade após quase oito anos em poder das Farc. Sorridente, o ex-refém abraçou e beijou ambos longamente e respirou o ar da capital de Meta, o departamento (estado) onde governou em dois períodos — o último deles interrompido em julho de 2001, quando um comando guerrilheiro o interceptou a bordo de um veículo das Nações Unidas.
“Estou livre!", exclamou Jara no início da entrevista. “Já descansei por sete anos, agora cheguei para trabalhar por eles", emendou, referindo-se aos demais “reféns políticos” mantidos pela guerrilha. A comissão humanitária que Piedad chefia em nome do movimento Colombianos pela Paz planejava deslocar-se a seguir para Cali, no Sudoeste, onde hoje está prevista a entrega do ex-deputado regional Sigifredo López, sequestrado em 2002. Concluída a libertação unilateral de seis cativos — iniciada no fim de semana, com três policiais e um soldado —, restam em mãos da guerrilha mais 22 oficiais e suboficiais do Exército e da polícia, além de centenas de civis “retidos” para fins de extorsão.
Na breve entrevista, Alan Jara confirmou os rumores que circulavam nos últimos meses sobre problemas em sua saúde, mas não entrou em detalhes: “Estou bem, mas estou doente". E agradeceu a Piedad e aos Colombianos pela Paz, cuja iniciativa de trocar cartas com as Farc resultou na libertação unilateral de um grupo de reféns. O ex-governador anunciou a intenção de integrar-se ao grupo, formado por intelectuais de esquerda, e elegeu como prioridade a libertação do coronel Luis Mendieta e do cabo Pablo Moncayo, ambos cativos na selva há mais de 10 anos, dos quais nos últimos dois teriam passado permanentemente acorrentados. “Piedad: temos que ir buscá-los", apelou.
CATIVEIRO
Na selva, contou Alan Jara, “cada dia e cada noite dura o dobro do tempo, em meio ao esquecimento". O ex-governador relatou que “não leu um jornal sequer” nos sete anos e meio que passou em cativeiro. Sua fresta de janela entreaberta para o mundo era o programa semanal de rádio Vozes do sequestro, no qual os parentes podiam enviar mensagens para os sequestrados. “Foi pelo rádio que ouvi meu filho Alan Felipe crescendo", narrou, com a voz embargada. Quando o pai foi capturado pela guerrilha, em julho de 2001, o menino tinha 7 anos. Hoje, é um adolescente mais alto que os pais.
Ao contrário da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, que por duas vezes tentou escapar e purgou longos períodos de castigo, afastada dos demais reféns e amarrada durante a noite, Alan Jara revelou que nunca ensaiou uma fuga do cativeiro. “Seria igual a jogar uma roleta russa, mas com seis balas no revólver", comparou. O comportamento contrastou fortemente também na chegada à liberdade: enquanto Ingrid desdobrou-se em elogios ao presidente Álvaro Uribe, Jara foi contundente na crítica. Para ele a única saída é a negociação com o grupo.

04-02-09 09:26:46,