Esquenta briga de filhas pela fortuna de Hélio Garcia

por Léo Quintino Email

No Estado de Minas, de Leonardo Augusto:

Justiça mantém filha do ex-governador afastada da administração do patrimônio dele, que inclui sete fazendas no estado. Ministério Público apontou vários indícios de irregularidades

Às vésperas da posse de um novo chefe do Executivo mineiro, um ex-governador de Minas por duas vezes vive mais um drama além do diagnóstico de Alzheimer. Especialista em costuras políticas, Hélio Garcia está no centro de uma disputa entre suas três filhas, que envolve suspeita de venda ilegal do patrimônio do pai, o que fez com que a Justiça retirasse da família o controle dos negócios dele. Por causa do Alzheimer, que provoca danos mentais, Garcia, de 79 anos, está interditado judicialmente desde outubro de 2006.

O novo curador do ex-governador, em substituição a Adriana Maria Garcia Ferreira, sua primeira filha, é Evandro Pádua de Abreu. Antigo aliado político, Abreu foi secretário municipal de Garcia na Prefeitura de Belo Horizonte (1983 a 1984) e estadual nas duas vezes em que o ex-governador ocupou o Palácio da Liberdade (1984 a 1987 e 1991 a 1995). O pedido para a troca no comando dos negócios partiu de Daniela Maria Garcia, a terceira filha de Garcia. A argumentação foi de que Adriana teria vendido café, eucalipto e parte do rebanho bovino das fazendas que o ex-governador tem em Santo Antônio do Amparo, a 180 quilômetros de Belo Horizonte, no Centro-Oeste do estado, sem autorização judicial.

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Na defesa, os advogados de Adriana afirmaram que todas as negociações envolvendo a produção da fazenda foram feitas para pagar dívidas contraídas por Garcia para administrar as propriedades. Relatório do Ministério Público Estadual (MPE), no entanto, aponta para indícios de má gestão da antiga curadora do ex-governador. O texto diz que “investigações indicaram e comprovaram uma série enorme de irregularidades’, resultando em prejuízo para o interditado e colocando a administração “sob suspeita, para dizer o mínimo”. O relatório diz ainda que “restou cabalmente comprovada a desobediência às determinações do juízo, com a venda de milhares de cabeças de gado em condições extremamente estranhas, e de milhares de metros cúbicos de eucalipto”.

As informações estão no processo judicial, que corre sob segredo de Justiça, ao qual o Estado de Minas teve acesso. Os promotores que investigaram as suspeitas de irregularidades nas fazendas de Hélio Garcia são Luiz Antonio Fonseca Filho e Maria Elmira Evangelina do Amaral Dick.

Desde julho do ano passado, quando a Justiça determinou que Evandro Pádua de Abreu assumisse como curador de Hélio Garcia, Adriana tentou várias vezes voltar ao comando dos negócios do pai. No último dia 23, a Justiça negou pedido de mandado de segurança da segunda filha do ex-governador, Andrea Carmelita Garcia Rabelo, que defende o retorno de Adriana como curadora do pai. A argumentação foi de que ela deveria ter sido ouvida antes da decisão que passou a curadoria a Evandro Pádua. As duas irmãs, ao longo do processo, afirmam ainda que o novo administrador cuida mal dos negócios do ex-governador e que teria ficado contra Garcia em processo movido na Justiça do Trabalho por um ex-contratado das fazendas da família em Santo Antônio do Amparo.

DOIS MILHÕES DE PÉS DE CAFÉ

O patrimônio de Hélio Garcia inclui sete fazendas interligadas, num total de 3,5 mil hectares, e aproximadamente dois milhões de pés de café. O hectare na região, segundo o Sindicato de Produtores Rurais de Santo Antônio do Amparo, oscila hoje entre R$ 10 mil e R$ 20 mil, dependendo do relevo. Quanto menos acidentado, mais valorizado. Em terras, portanto, Hélio Garcia tem pelo menos R$ 35 milhões.

Para ter ideia do tamanho, a reportagem percorreu ontem 22 quilômetros de estradas de terra sem deixar as propriedades do ex-governador. Nos últimos anos, no entanto, o tamanho das propriedades não vêm correspondendo ao que as fazendas têm capacidade para produzir. Em 2008, portanto já sob o comando da filha, as fazendas produziram mais de 20 mil sacas de café. O total estimado para 2010, conforme funcionários da fazenda, não será superior a 10 mil sacas. O ex-governador, que chegou a ser o principal produtor de café da região, hoje ocupa a terceira ou quarta posição, segundo agricultores de Santo Antônio do Amparo.

O rebanho bovino também caiu, de aproximadamente 3,5 mil cabeças há cinco anos para cerca de mil em 2010. Menos gado, menos leite. A produção, que chegou a dois mil litros diários em 2008, não ultrapassa os 800 litros hoje. Com o litro a R$ 0,36, a receita das fazendas com o produto hoje é de R$ 288 por dia. Já em relação ao café, com a saca do grão a R$ 240, a receita das fazendas, se confirmada a produção esperada para 2010, chegará a R$ 2,4 milhões. Com alguma oscilação, já que o preço pode variar um pouco até o fim da safra.

O início da colheita na região está previsto para a primeira quinzena de abril. Com a saca a este valor, em 2008, a receita seria superior a R$ 4,8 milhões. Conforme frase de Hélio Garcia, que hoje passa a maior parte do tempo em uma das fazendas em Santo Antônio do Amparo, a Santa Clara, e faz viagens a Belo Horizonte e ao Rio de Janeiro, “não se faz política sem vítimas”. Ao que se vê, o mesmo pode ocorrer nos negócios e na família.

PERFIL

Hélio Garcia nasceu em 16 de março de 1931, em Santo Antônio do Amparo

1962
Eleito deputado estadual pela UDN

1964
Posse como secretário de Interior e Justiça do governo Magalhães Pinto

1966
Eleito deputado federal pela Arena

1971
Anuncia a decisão de se afastar da vida pública

1975
Retorna como presidente da MinasCaixa, no governo Aureliano Chaves

1979
Retorna à vida pública se elegendo deputado federal

1982
Eleito vice-governador na chapa de Tancredo Neves pelo PMDB

1983 a 1984
Prefeito biônico de Belo Horizonte

1984 a 1987
Assume Governo de Minas em substituição a Tancredo Neves

1991 a 1995
Reassume o governo de Minas pelo PRS (Partido das Reformas Sociais), fundado por ele

1998
Renuncia à candidatura ao Senado antes da eleição, deixando a vida pública definitivamente

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