Empresas que mais empregam ficam sem ajuda do Governo

por Léo Quintino Email

No Estado de Minas, de Heberth Xavier e Sandra Kiefer:

Especialistas aplaudem o socorro a montadoras, bancos e grandes exportadoras, mas alertam que crise já atinge microempresas, com dificuldades de obter crédito barato

A crise econômica agravada em setembro escolheu como vítimas preferenciais os bancos, os fabricantes de automóveis e os grandes exportadores de matérias-primas. Esse é o lado mais visível da história. Há um outro, mais sutil embora igualmente grave: com menos alarde, a turbulência que abala o mundo econômico começa a chegar às micro e pequenas empresas brasileiras. Para muitos, não só começou a chegar como já chegou e promete provocar estrago grande em toda a cadeia produtiva.

Confira a história do empresário D., que pediu anonimato ao Estado de Minas para contá-la. Ele está devendo R$ 74 mil. Para abrir a filial de sua confecção de roupas em Belo Horizonte, apelou para empréstimos em bancos e até para o cheque especial. Terça-feira, tentou obter um empréstimo facilitado para microempresas em um banco público. Não conseguiu. “Já estou pensando em vender tudo, pois descobri que estou trabalhando para o governo e para os bancos, pagando juros e impostos”, lamenta o microempresário. “O governo vive ajudando os grandões e não tem nenhuma posição para salvar os pequenos.”

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A seu modo, D. resumiu um lado verdadeiro das respostas oficiais à crise. De fato, as maiores beneficiárias das medidas anunciadas de setembro até agora pelo governo foram as grandes companhias. Desde então, os bancos foram beneficiados pela redução do empréstimo compulsório que são obrigados a depositar nas contas do governo; as montadoras de veículos conseguiram a tão sonhada redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI); produtores rurais também obtiveram isenções fiscais e anistias provisórias de dívidas; exportadores de matérias-primas têm agora acesso a crédito voltado especificamente para elas.

De um modo geral, salvo raras exceções, foram medidas aplaudidas pelos especialistas – até porque uma quebradeira nesses setores provocaria, de fato, um efeito dominó nefasto sobre toda a economia do país. O problema é que, fora desse grupo de beneficiados, pequenas e microempresas já apresentam sinais de asfixia.

Outra história envolve a marca Vitapão, de pães naturais, que, depois de 15 anos, desapareceu das gôndolas dos supermercados. A marca restringiu a fabricação a outros produtos naturais e integrais, com maior durabilidade. A empresa de pequeno porte está enfrentando dificuldades para vender às grandes redes, que rejeitam os inscritos no SuperSimples em função da contrapartida do ICMS. A situação piorou com a crise mundial, que fez retrair o consumo, segundo o proprietário da fábrica, Mateus Ferreira Duque. “A crise mundial já está atingindo os pequenos, reduzindo o volume de vendas”, protesta. “O governo ajudou a siderurgia, mas não acenou com nada para as microempresas. Deu uma mexidinha no SuperSimples que não aliviou a ninguém”, compara.

20% DO PRODUTO INTERNO BRUTO

“É impossível imaginar que essa onda de demissões e reduções de jornada e salário não chegará às menores empresas”, diz o diretor-superintendente do Sebrae Minas, Afonso Maria Rocha. Ele explica: “Aparecemos pouco na mídia, mas somos uma parte importantíssima da cadeia produtiva. Se uma ponta dela, formada pelas grandes companhias, demonstra dificuldades, é inegável que também passaremos por ela”.

Dados do próprio Sebrae mostram que seis trabalhadores brasileiros, em cada dez, estão empregados em empresas de pequeno e micro porte. Elas são ainda responsáveis por mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Mais: 98% do total de estabelecimentos da indústria e do comércio em operação no país são pequenas e microempresas.

Das medidas anunciadas até ontem pelo governo, a citação direta às pequenas e microempresas ocorreu apenas no início de novembro, quando foram anunciados R$ 5 bilhões, provenientes do BB, para abertura de linhas de crédito para capital de giro de pequenas e médias. Segundo o Sebrae, o governo federal anunciou há um mês a liberação de R$ 1 bilhão para engordar o caixa das pequenas empresas afetadas pela crise, financiado com recursos do BNDES junto ao BID. Mas ainda é pouco diante do socorro (mais de R$ 100 bilhões) garantido às grandes empresas, montadoras e bancos desde o início da crise.

A ameaça de a crise chegar de vez aos pequenos é admitida pelos executivos das grandes. Segundo Rogério César de Souza, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi, cujos conselheiros estão entre os maiores empresários brasileiros), o alerta de demissões nas microempresas já soou. “Os conselheiros aqui têm acesso também às micro e pequenas, que são fornecedores, e ambas as partes estão preocupadas”, afirma Souza. “O crédito, que é a cara mais explícita da atual crise, desapareceu nos últimos meses de 2008, dá sinais de retorno agora, mas essa retomada está limitada às maiores empresas.”

BANCO PÚBLICO É ALTERNATIVA

Segundo os últimos dados do Banco Central relativos ao crédito , ele estagnou nos últimos três meses de 2008. No ano passado, o crédito bateu recorde, ao atingir R$ 1,23 trilhão (expansão de 31,1% em relação a 2007). No acumulado entre outubro e dezembro, porém, ele ficou praticamente estável (aumento de apenas 0,1%). Em dezembro, constatou-se uma recuperação, com aumento de 14% nos empréstimos (para as empresas, subiram 16,8%). Essa retomada, até por ser uma consequência direta das medidas tomadas pelo governo no fim do ano, pode ser enganosa, ao menos na perspectiva das pequenas empresas, como lembra Souza, do Iedi: “O dinheiro está, de fato, aos pouquinhos retornando. Mas isso é visível para quem já tem histórico, como é o caso das grandes companhias. Para as micro, ter acesso a empréstimos está cada vez mais difícil”.

O problema é que, com a crise, o receio de os bancos emprestarem – temor histórico no país, até mesmo em períodos de bonança – acaba privilegiando ainda mais as grandes. Com medo do calote, as instituições financeiras privadas optam pela compra de títulos do governo (com risco praticamente zero) ou pelo crédito a uma companhia de maior porte (que oferece, em tese, risco de inadimplência também menor).

Para Rogério de Souza, uma alternativa seria o uso dos bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa, notadamente) e do BNDES (banco estatal de investimento) para fazer o papel que não tem sido cumprido satisfatoriamente pelas instituições privadas. O problema é que, até o momento, não é o que tem ocorrido.

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