Depoimento desmascara fraudes no TCE
por Léo Quintino
No Estado de Minas, de Alessandra Mello:
Uma das principais testemunhas do esquema de fraudes desbaratado pela Polícia Federal é o advogado tributarista Marcelo Abadalla, ex-consultor jurídico do Grupo SIM – Instituto de Gestão Fiscal. Em mais de 10 horas de depoimentos gravados ano passado pela Polícia Federal em áudio e vídeo, ele detalhou o funcionamento da organização criminosa e principalmente o pagamento de propina para magistrados, políticos e integrantes do Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE-MG). Disse ter participado de reuniões do Grupo SIM com a presença do auditor chefe do tribunal, Edson Arger. De acordo com o seu depoimento, era o auditor quem recolhia o dinheiro que seria depois distribuído aos conselheiros. No entanto, em seu depoimento ele disse não saber especificar claramente o nome dos conselheiros mineiros que seriam beneficiados com esses pagamentos. Falou ainda que o ex-prefeito de Juiz de Fora, Carlos Alberto Bejani (PTB) também era figura constante nas reuniões do SIM, principalmente para tratar de seus processos em tramitação no TCE.
Abdalla contou aos agentes federais ter recebido ameaças de morte dos envolvidos nas acusações e afirmou que sua casa em Caratinga, na Zona da Mata, foi invadida por dois homens fortemente armados, um deles portando uma escopeta. A casa de uma irmã, em Ipatinga, no Vale do Aço, também teria sido alvo de ataques suspeitos, todos ocorridos depois que ele voltou atrás em seu primeiro depoimento, dado em 20 de abril. Contou ainda que o pai de um amigo próximo apareceu enforcado em Ipatinga, em condições misteriosas, o que teria aumentado seu temor.
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Veja os principais pontos do depoimento
O advogado tributarista fez um acordo de delação premiada. Em troca de detalhes sobre todo o esquema, ele teria sido inocentado das acusações iniciais de formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Procurado pela reportagem, o advogado confirmou seu depoimento e disse que tudo que tinha para contar já estava nos autos do processo. Disse ainda que preferia não tecer comentários sobre a investigação.
No início de abril do ano passado, logo após a primeira fase da Operação Pasárgada, que investigava a venda de sentenças e decisões favoráveis para prefeituras enroladas com a retenção do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e com o TCE, ele assumiu ser dono do R$ 1,1 milhão em dinheiro vivo encontrado na casa de Bejani, então prefeito de Juiz de Fora. O dinheiro teria sido entregue a Bejani como forma de pagamento da compra de uma fazenda.
Detalhes
Nos dois depoimentos seguintes ele mudou a versão e deu detalhes das fraudes. Negou que tenha comprado a fazenda e disse ter sido pressionado pelos acusados para assumir a versão da compra da propriedade rural. Abdalla já depôs na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aberta pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para apurar a participação dos conselheiros fluminenses José Graciosa e José Nader nas fraudes.
Alem de Arger, em Minas são investigados os conselheiros Elmo Braz, Wanderley Ávila e Antônio Andrada. Todos negam qualquer tipo de envolvimento com as fraudes. Chamados a depor, os três permaneceram calados em seus depoimentos. O Grupo SIM também nega qualquer irregularidade em seus contratos e também o pagamento de propina para obter decisões favoráveis aos clientes.
Abdalla afirmou que uma das ameaças teria sido feita de maneira velada por Edson Arger, que esteve na sua casa em companhia dos diretores do grupo SIM, Sinval Andrade e Nelson Batista. Arger negou qualquer tipo de ameaça e disse que no fim da visita apenas desejou ao advogado que “Deus o ajudasse”, porque é uma pessoa católica. O depoimento de Abdalla inclusive foi usado pelo Ministério Público Federal e pela PF para fundamentar o pedido de prorrogação da prisão de Arger, que passou cerca de três meses na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Bejani também ficou detido.

25-03-09 10:25:14,