Panes e lotação revelam defasagem do metrô de BH
por Léo Quintino
No Estado de Minas, de Nayara Menezes:
A cozinheira Fátima Félix Figueiredo, de 56 anos, acorda às 4h30 para começar sua jornada diária. Ela mora em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e trabalha em uma casa de família, no Bairro Buritis, na Região Oeste da capital. Para estar no serviço às 9h, Fátima tem que sair de casa às 5h45, pegar o ônibus das 6h para estar às 7h na Estação Eldorado em Contagem, de onde embarca no metrô rumo ao Calafate. De lá, toma o segundo ônibus para o Buritis. São quase três horas de baldeação até alcançar seu destino. Daí, depois de oito horas de serviço, é hora de enfrentar toda a via crucis no retorno ao lar. “A volta é ainda mais complicada, porque o metrô fica lotado, mal dá para respirar. Tem dia que está tão cheio que não dá para entrar e tenho de esperar o próximo. Acabo perdendo o ônibus e só consigo chegar em casa às 22h ”, diz. Para piorar a situação, ela faz todo o percurso nos coletivos de pé, quase todos os dias, já que raramente encontra um banco vago.
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A reclamação vai além da lotação dos trens: os passageiros têm que lidar ainda com os atrasos nos horários, que vêm se tornando constantes. Terça-feira, problemas técnicos na linha chegaram a aumentar a viagem em mais de uma hora. Este mês, já foram registradas outras falhas que demandaram o atraso das composições; em 21 de dezembro, o rompimento de cabos de energia deixou paralisados os trens das estações do metrô Eldorado, Vila Oeste e Cidade Industrial, por mais de um dia.
De acordo com o Sindicato dos Empregados em Empresas de Transporte Metroviário e Conexos de Minas Gerais (Sindimetro - MG), terça-feira não foi segunda vez que falhas no sistema da companhia causaram transtornos aos usuários. Este ano já foram pelo menos cinco panes, segundo o diretor do Sindimetro- MG, Sérgio Leôncio. “As panes são recorrentes desde a implantação da Estação Vilarinho. Só este mês, é a terceira vez que ocorre a queda da chave de eletricidade no local”, afirmou.
Fátima Félix é apenas um exemplo entre os quase 190 mil cidadãos que trafegam diariamente entre as 19 estações em operação, administradas pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). Essas pessoas enfrentam labuta semelhante ao se aventurar pelo sistema de transporte coletivo de Belo Horizonte. Para acompanhar essa jornada, uma equipe do Estado de Minas percorreu toda a extensão da linha do metrô, até o ponto final, na Estação Vilarinho. A cozinheira foi entrevistada a bordo do trem que partiu quinta-feira da Estação Eldorado às 7h32. Por volta das 8h30, na direção contrária, entre as estações José Cândido da Silveira e Gameleira, a viagem foi lenta, interpelada por diversas paradas no meio do nada, sem qualquer comunicado dentro dos vagões.
Na maior parte do percurso feito pela equipe do EM, que viajou de pé por falta de espaço, vagões encheram e esvaziaram rapidamente. E, apesar da lotação aparente, a maioria dos usuários garantiu que a situação estava tranquila. “No fim do dia, depois das 18h, não precisamos nem entrar no trem, as pessoas é que entram com a gente”, descreveu o porteiro Geraldo de Castro, referindo-se ao empurra-empurra dos passageiros nos horários de pico. E os usuários confirmaram a repetição dos problemas.
A vendedora Ádila Montes usa o metrô diariamente para se deslocar de casa, no Bairro Floramar, na Regional Norte, até o shopping em que trabalha, no Centro. A viagem de ida, às 8h30, é considerada tranquila, pois, o trem está mais vazio. “Dá para sentar, ler alguma coisa, acabar de maquiar.” Já a volta é bem diferente. “É um tumulto só, muita gente para pouco espaço. O ar condicionado não funciona e fica muito abafado aqui. Já passei mal por causa do calor”, diz a vendedora que está grávida e nem assim consegue garantir um lugar para sentar. Ádila também relata os atrasos constantes. “Ultimamente tem sido mais longa, pois, o trem chega a ficar cinco minutos parado em algumas estações”, reclama.
calor de lascar Outro antigo usuário do metrô que sofre para chegar ao seu destino é Jaime de Oliveira. Ele trabalha como caixa em um banco no Centro de BH. Na Gameleira, Região Oeste, ele relembra o primeiro trajeto. “Participei da primeira viagem do metrô em junho de 1986. Foram muitas promessas de ampliação da linha. Mas, desde então, pouco foi feito. Tenho a sensação de que o metrô de BH parou no tempo”, comentou Jaime, que já demonstrava sinais de intenso suor devido ao forte calor na plataforma de embarque. Ao chegar à Praça da Estação, sua camisa estava molhada. “Tenho que sair de casa mais cedo, porque ao chegar ao trabalho, preciso ir ao banheiro, tirar a camisa, lavar o rosto, me recompor, para só depois assumir o posto.”
O mau funcionamento do sistema de refrigeração das estações e no interior dos trens é outra peleja do sistema, apontada pelo diretor do Sindimetro-MG. “No Rio, São Paulo e Recife as condições são bem melhores que aqui. Nessas cidades as estações são climatizadas, assim como os vagões”. Sérgio Leôncio enumera ainda outros graves problemas. “Além das panes, há falhas no sistema de rádio, faltam equipamentos de segurança para funcionários, há pouco ou nenhum recurso para a substituição de peças. Os trens estão cada dia mais degradados, pondo em risco funcionários e passageiros”, denuncia.
Por essa razão, segundo ele, ao menos quatro composições estão paradas no pátio da CBTU. O sindicato enviou recentemente uma carta à companhia, com diversas reivindicações. A resposta foi um outro documento, mas sem soluções concretas para os problemas. Foi observado ainda, durante o trajeto da equipe do EM, que não há espaço nos vagões reservado com cinto de segurança para cadeirantes.


12-02-11 12:43:54,