Como funciona o jornalismo nas TVs brasileiras

por Léo Quintino Email

No Comunique-se, de Antonio Brasil*:

“Põe na TV. Manda botar o destino do dinheiro recebido".

Este é trecho mais polêmico do diálogo entre o novo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), aquele das concessões de TV e do “dando que se recebe”, e seu filho Fernando sobre matérias que deveriam ser veiculadas na TV Mirante e no jornal O Estado do Maranhão. Ambos são propriedade da família Sarney e divulgaram denúncias contra o governo de Jackson Lago (PDT), rival de Sarney no estado. A reportagem foi publicada na Folha de São Paulo deste último domingo e teve grande repercussão (ver matéria do Comunique-se).

E tem gente que ainda acredita na objetividade e imparcialidade dos nossos telejornais.

Também aproveito para recomendar o excelente artigo “Como funciona o coronelismo eletrônico”, de Luiz Antonio Magalhães para o Observatório da Imprensa.

Está tudo lá. Inclusive a íntegra da matéria da Folha.

...

Em análise equilibrada, Luiz Magalhães confirma o que há de pior na gestão do jornalismo em nossas TVs: o coronelismo eletrônico.

Apesar das ameaças de mudança, o modelo da ditadura ainda prevalece nas redações brasileiras. Principalmente, no jornalismo local. As matérias “recomendadas” pelos donos da empresa nas emissoras privadas ou pelos donos do governo nas televisões públicas (sic) ainda possuem lugar de destaque. No fundo, é tudo a mesma coisa.

Aproveito para confirmar a avaliação de Magalhães: “A matéria da Folha é o que de melhor este observador já viu para explicar um conceito teórico na prática. Está tudo lá: uma família (Sarney), proprietária de uma rede de veículos de mídia (além da TV Mirante, afiliada da Rede Globo, e do jornal, a família detém retransmissoras no interior e uma rede de rádios), faz uso político desses veículos, ao arrepio da legislação, conforme observa a reportagem da Folha (a lei 4.117/62 proíbe uso de emissoras de TV para fins políticos).”

Mais adiante, Luiz Magalhães avalia a importância das denúncias: “Os pesquisadores ganharam um ‘estudo de caso’ perfeito para explicar o conceito de coronelismo eletrônico e os leitores da Folha foram premiados por uma excelente reportagem”.

Tivemos uma rara oportunidade de confirmar a maneira como são pautadas as matérias mais polêmicas do nosso jornalismo de TV. Principalmente, nas emissoras locais.

TV Polícia Federal

Agora só nos resta saber os detalhes de como foi feita a gravação e quais foram os “verdadeiros” objetivos do vazamento exclusivo para a Folha.

Segundo a mesma reportagem, “O grampo foi feito pela PF nos telefones de Fernando, principal alvo da Operação Boi Barrica, que apura movimentações financeiras de empresas da família Sarney no período eleitoral de 2006. Fernando sacou R$ 2 milhões nos dias 25 e 26 de outubro daquele ano, três dias antes do segundo turno.”

É pode ser.

No entanto, os jornalistas da Folha confirmam que “no dia seguinte ao diálogo entre Sarney e seu filho, ‘O Estado do Maranhão’ publicou a reportagem ‘Empresa sediada no Rio recebeu verba pública destinada a Caxias’, sobre a denúncia contra Aderson e seu filho. Houve ainda duas outras reportagens negativas a Lago na semana seguinte. Lago diz que a TV também fez matérias sobre as denúncias.”

Por outro lado, a família Sarney recorre à velha justificativa da reciprocidade para justificar o modelo de jornalismo. Afinal, eles, os políticos da oposição, fazem a mesma coisa. Eles também utilizam os meios de comunicação e o jornalismo para atacar seus inimigos.

Ou seja, os fins justificam os meios e as concessões de TV. Principalmente, se os meios e as TVs não passam de propriedade privada e hereditária, verdadeiras capitanias comunicacionais. Ou em última instância, por que mudar o que sempre funcionou, seja na ditadura ou na democracia à brasileira?

Ainda segundo a Folha: “Os veículos de comunicação a serviço do governador Jackson Lago, entre os quais o ‘Jornal Pequeno’, atacam a família Sarney de forma irresponsável, criminosa e sistemática, mas nem por isso a família Sarney usa seus veículos de comunicação para responder a essas calúnias", disse a assessoria do senador, que não quis comentar o grampo.

Nada como o “jornalismo de interesses e resultados” em épocas de eleição no Brasil. Ainda mais com direito à concessão pública de televisão renovável ad aeternum e sem qualquer fiscalização e controle por parte da sociedade. E o mais importante: contrato de transmissão exclusiva da programação da rede líder, a Globo. Quem precisa de algo mais? Afinal, como bem sabemos, “é dando que se recebe”.

Agora só nos resta confirmar os objetivos da gravação e o timing do “vazamento” de conteúdo tão polemico com exclusividade para a Folha nos próximos capítulos dessa novela.

E por que será que desta vez o “vazamento” da Polícia Federal não beneficiou o jornalismo a Globo com mais uma “exclusiva”? Perguntar não custa.

E já que estamos diante de tantas novas televisões públicas ou estatais, sempre tão caras, ignoradas pelo público e incrivelmente inúteis, aproveito o momento para sugerir mais um canal de TV pública. Um canal especializado em jornalismo investigativo.

No ar a TV Polícia Federal.

Foi só uma sugestão.

*É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Atualmente, faz nova pesquisa de pós-doutorado em Antropologia no PPGAS do Museu Nacional da UFRJ sobre a “Construção da Imagem do Brasil no Exterior pelas agências e correspondentes internacionais". Trabalhou na Rede Globo no Rio de Janeiro e no escritório da TV Globo em Londres. Foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. É responsável pela implantação da TV UERJ online, a primeira TV universitária brasileira com programação regular e ao vivo na Internet. Este projeto recebeu a Prêmio Luiz Beltrão da INTERCOM em 2002 e menção honrosa no Prêmio Top Com Awards de 2007. Autor de diversos livros, a destacar “Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica", “O Poder das Imagens” da Editora Livraria Ciência Moderna e o recém-lançado “Antimanual de Jornalismo e Comunicação” pela Editora SENAC, São Paulo. É torcedor do Flamengo e ainda adora televisão.

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