Camden Town: o incêndio e o Grammy*
por Léo Quintino
Por Vitor Hugo Soares:
Horas antes da cerimônia de entrega do prêmio Grammy 2008, em Los Angeles, a TV mostrou imagens do incêndio de sábado passado no Mercado Camden Town, referência de um dos mais frenéticos bairros de Londres. Modelo de convivência, no lugar circulam em harmonia britânicos tradicionais, punks, artistas,intelectuais, imigrantes, góticos, moças e idosas de “piercing” e tatuagens de arrepiar, gente enfiada em roupas de látex negro e botas militares ou vestidos de oncinha. Em Camden, ninguém estranha ninguém.
Penso nisso, enquanto observo as chamas de mais de dez metros de altura que lambem o espaço louco e maravilhoso do berço do rock pauleira de verdade, onde passei um domingo fascinante em abril do ano passado. Zanzava então pelo caótico e livre ambiente onde a cantora Amy Winehouse, a grande vencedora do Grammy 2008, pode ser encontrada, em geral às quedas, pelo menos três vezes por semana, quando está em Londres.
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Apontada como “mau exemplo", a cantora britânica de apenas 24 anos, nascida no seio de família judia, foi proibida de entrar nos Estados Unidos para receber pessoalmente os prêmios e os aplausos da sua consagração no principal evento anual da música no planeta. O visto, negado inicialmente, foi concedido depois de grita geral no país engalfinhado em renhida disputa eleitoral entre Democratas e Republicanos, pela sucessão de George W. Bush na Casa Branca.
Tarde demais . A ganhadora de cinco das seis categorias para as quais recebeu indicações, desistiu de viajar para Los Angeles.Tímida, incrédula e quase em pânico, Amy viu também pela TV o seu primeiro troféu da noite ser anunciado por Tony Bennett e Natalie Cole no pavilhão de espetáculos americano, enquanto ela se apresentava no palco de uma modesta casa de shows do seu país, para um restrito grupo convidados e conhecidos.
Depois do abraço quase patético na mãe e nos exultantes músicos da banda , foi à capital britânica, ao namorado na cadeia, e ao seu bairro preferido, que a cantora dedicou as mais emocionadas palavras de agradecimentos. “Isto (o prêmio) é para Londres, Londres. É para Camden Town incendiada".
Baiano de muitas crenças, ateu que acredita em milagres, embora geralmente cético até por dever de ofício, confesso: fiquei balançado e pasmo com a sucessão de fatos e estranhas coincidências que me passaram diante dos olhos na noite de sábado e madrugada de domingo passados. Por exemplo: ver destruído o mercado que eu havia percorrido há menos de dez meses; algumas das casas de dança e espetáculos mais badaladas o modernas da velha Europa; o restaurante chino onde bebi cerveja e comi, ao lado de pessoas de todo lado do planeta, atraídas por Camden.
Consumido pelo fogo, o pub “Hawley Arms” - famoso por ser o preferido de cantora Amy Winehouse, e local freqüentado por famosos como a top Katy Moss, a estilista Sadie Frost, o comediante Noel Fielding, o músico Peter Doherty e bandas como The Zutons e Razorlight. Para as janelas do Hawley em chamas, foram dirigidos os primeiros e mais potentes jatos de água dos eficientes bombeiros londrinos.
Liguei para Laura Tonhá, a bonita, moderna e antenada publicitária baiana que, em abril passado, residia e fazia curso em Londres. Partiu dela o argumento que derrubou a última barreira de resistência do jornalista careta, para ir a Candem com a sua tia Margarida (também jornalista) e seus pais (especiais companheiros de viagens e de farras): “Vamos, meu tio, você vai amar. Camden é o que há em Londres, atualmente!”
Não me perdoaria agora, se tivesse recusado o convite. Camden Town é, em definitivo, um desses lugares que o projetam diretamente para dentro do belo poema da polonesa Wisllawa Sziynborska: “Peço desculpas ao tempo/ por todo o mundo que eu não enxerguei a cada segundo".
Depois do incêndio e da recente festa do Grammy, fim de semana, o pulsante pedaço londrino de Camden ficou ainda mais significativo . Além de todas as gratas lembranças que trouxe de lá para a Bahia, não consigo mais dissociar o lugar da artista Amy Winehouse, talvez a sua mais completa tradução, hoje, como Rita Lee na São Paulo dos anos 70.
Quem a escuta sem ver a imagem, pode imaginar ser uma daquelas cantoras negras da época do selo Motown. Na verdade, Amy Winehouse é uma inglesa, branca, de apenas 24 anos, com a face e o resto do corpo destroçados pelo álcool, pelas drogas pesadas e os tratamentos forçados de reabilitação. A aparência é de uma quase cinquentona.
Mas Amy tem voz e talento interpretativo dignos das grandes e eternas divas do jazz, do blues, da melhor música negra. “Gênio maníaco-depressiva", no diagnóstico de alguns, a fabulosa artista faz estremecer quando, por exemplo, canta “Rehab", faixa do disco primoroso “back to black” em que ironiza o seu tratamento contra as drogas, que lhe rendeu a principal das cinco estatuetas que arrebatou domingo passado: “Eu não tenho tempo/ e se meu pai pensa que eu estou bem/ ele tentou me levar à reabilitação./ Eu não irei, não, não".
Palmas para Amy, que ela merece.
Vitor Hugo Soares é jornalista - E-mail: vitors.h@ig.com.br

17-02-08 15:58:33,