Brasil x Espanha: um jogo delicado

por Léo Quintino Email

Por Vitor Hugo Soares:

O encontro no Itamaraty entre o presidente Lula e o “companheiro português", José Manuel Durão Barroso, que atualmente preside a Comissão de Países da União Européia, serviu de treino para o jogo Brasil x Espanha, valendo pontos. Será depois da Semana Santa, em Madri, cujo aeroporto tem reservado para viajantes brasileiros pungentes situações, que redundaram em pesado incidente diplomático, a partir dos sucessivos e graves fatos denunciados na mídia ultimamente.

O embate da semana que vem será no campo do adversário para a diplomacia brasileira. Os dois governos tentarão achar o portão de desmbarque para a crise produzida pelos incidentes de humilhação, seguidos da deportação de levas de turistas detidos no aeroporto de Barajas nas últimas semanas. O caso foi amplificado pelo inesperado e severo tratamento de reciprocidade dispensado a viajantes espanhóis em aeroportos de capitais turísticas brasileiras, especialmente Salvador.

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Os panos-quentes dos últimos dias, representados pela visita a Brasília do presidente da Comissão Européia e o posterior reconhecimento público do Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha de que houve “erros” no tratamento dispensado a viajantes brasileiros chegados a Barajas - com a a Semana Santa no meio - ajudam a desanuviar o ambiente carregado .

Ainda assim, para Madri se desenha uma partida cheia de atrativos, manhas e muita tensão, para usar imagem ao gosto do treinador do Planalto. A intenção dos dois lados parece ser a de evitar lances brutos ou desastrados. Fatos novos que possam acirrar mais ainda ânimos já exaltados nas arquibancadas. Como se sabe, o atual quiprocó foi desatado por episódios de intensa repercussão negativa, como o de Janaina Agostinho, a jovem brasileira deportada depois de viver uma semana de cão em Barajas, apesar de ter cumprido todas as exigências legais antes de embarcar para conhecer a família do noivo, residente em Madri.

Ampliou-se com relatos na Espanha de dramas semelhantes ocorridos do lado de cá, como o do casal de espanhóis em lua-de-mel A.C. e J.L. - os nomes verdadeiros não foram revelados pelos periódicos de Madri - “devolvidos sem contemplação a nosso país, apesar de cumprirem todos os requisitos de entrada", segundo denúncia de A.C. publicada em “El Mundo", “para que os espanhóis que viajam para o país carioca saibam o que pode acontecer".

Como se vê, há motivos de sobra para a preocupação dos dois times diretamente envolvidos neste confronto, que, segundo Durão Barroso, deve ser tratado apenas como um tema bilateral das relações Brasil-Espanha, e não da União Européia. Gato escaldado, o presidente brasileiro lembrou do importante papel desempenhado há alguns anos por Barroso - então primeiro-ministro português- para barrar a crise, quando incidentes semelhantes ameaçavam afundar a decantada irmandade Brasil-Portugal.

Todos têm muito a perder se o caldo agora engrossar de vez e se tornar intragável. E isso não só do ponto de vista das perdas no campo do turismo, por temores de lado a lado, de que os incidentes nos aeroportos possam conduzir ao esvaziamento paulatino dos assentos nos aviões que cruzam o espaço entre Espanha e Brasil, e vice-versa, ultimamente mais vice-versa segundo o “trade” baiano.

A título de ilustração, vale destacar um aspecto ainda pouco observado neste jogo Brasil x Espanha. Na Bahia, apenas na chamada Costa dos Coqueiros, novo “point” de 10 em cada 10 empresários internacionais, ricaços brasileiros, novos ricos e celebridades locais e nacionais, o volume de investimentos espanhóis anunciados até 2014 já ultrapassa os R$ 3, 4 bilhões, superior ao valor dos projetos dos “irmãos lusitanos": R$ 754, 4 milhões.

Dados da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia revelam que dos 16 empreendimentos previstos no cobiçado Litoral Norte, oito serão construídos por empresas espanholas. Nem todos eles voltados para o turismo, embora esses representem a maioria. Além deles, há projetos ambiciosos também no campo de energias renováveis e infra-estrutura, incluindo estradas e portos.

Vale assinalar o projeto do grupo Trusan, que engloba duas áreas na famosa Praia do Forte, vizinhas a dois outros mega-complexos turísticos ibéricos já em funcionamento: o Iberostar, ao norte, e o EcoResort, ao sul. Ali se planeja a construção de um dos maiores e mais modernos empreendimentos turísticos do País, com investimentos previstos de U$ 1,3 bilhão e a geração de quase 8 mil empregos diretos.

São argumentos de peso.que seguramente serão levados em conta na elaboração das táticas das equipes de Lula e de Zapatero. De significado tão relevante quanto a histórica excursão do time do Galícia (primeiro tri-campeão baiano de futebol, treinado por Aymoré Moreira, atualmente na segunda divisão do futebol estadual), a terras de Espanha, em 1992.

A excursão do “azulino baiano demolidor de campeões” (fundado por imigrantes espanhóis), foi patrocinada pela Junta da Galícia (governo local), em reconhecimento á contribuição do time de Jacozinho (arrasou ao lado de Maradona no jogo de despedida de Zico no Maracanã) no estreitamento dos laços afetivos e econômicos entre Bahia e Espanha.

Recebido com festas por onde passou - de Santiago de Compostela a Pontevedra - o velho e querido Galícia o tem sido lembrado atuamente em Salvador nesta fase de estremecimentos , como motivo de esperança de um final feliz para o clássico político e diplomático a ser jogado em Madri por Brasil-Espanha, na semana que vem.

Façam apostas, torcedores.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitors.h@ig.com.br

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