Baixo clero sustenta novos e velhos 'coronéis' da política

por Léo Quintino Email

No Hoje em Dia, de Dilke Fonseca:

José Sarney, Michel Temer, Renan Calheiros, Fernando Col-lor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, entre outros políticos, há 25 anos pelo menos, desde o primeiro Governo civil após a ditadura, mantêm inalterada sua visibilidade política, para o bem ou para o mal. Na base de todos, o baixo clero.

Sucumbem apenas os personagens que ganham visibilidade momentânea e se descolam do baixo clero, a massa ignara manipulada pela elite parlamentar, em seus 15 minutos de “fama”. Como os ex-deputados Ronivon Santiago e João Maia, então filiados ao PFL do Acre, atual Democratas, pelo envolvimento no escândalo da compra de votos por R$ 200 mil, para aprovar a emenda da reeleição em 1997, que beneficiou Fernando Henrique. Os deputados foram expulsos do partido e renunciaram aos mandatos.

Quem tem base eleitoral forte, costuma se manter no poder, como é o caso dos líderes políticos citados. A arte da sobrevivência política está fortemente ancorada no poder regional. “São pessoas que têm forte enraizamento em suas regiões e são muito bem articuladas nacionalmente. Como o Brasil é muito grande, é uma federação, os poderes regionais são muito importantes na composição do poder nacional”, analisa o cientista político e sociólogo Otávio Dulci.

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O PMDB, partido que acolheu boa parte desses políticos desde seu nascedouro, tem também papel fundamental neste processo. “É um partido de poder. O partido da governabilidade. O fiel da balança”, constata.
Quem faz parte desta estrutura fica, portanto, “escorado” não só para incrementar o seu prestígio e o do grupo, mas garantir proteção caso necessário. O segredo da sobrevivência é o de sempre apoiar quem está no poder, ser aliado dos governos, de qualquer governo.

Durante debate, no último dia 25 de março, sobre a crise econômica, com lideranças do Senado e representantes de instituições financeiras e sobre o papel do PMDB na eleição de 2010, José Sarney resumiu em uma frase o que a experiência lhe conferiu: “Qualquer que seja o resultado, o PMDB vai ganhar a eleição”.

Derrota na base fragiliza poder

A sobrevivência aos sucessivos escândalos se sustenta, da mesma forma, no respaldo destes grupos de poder regional, mas também, ironicamente, pelo fato de a cada hora ser um, o que faz esquecer o último.

Mas a fragilização deste sustentáculo tende a levar a perda da influência nacional. Em “O Príncipe”, Nicolau Maquiavel diz : “Para um político sobreviver, não deve ter qualquer remorso moral. Deve mentir, ser falso, aproveitar o melhor que puder as condições políticas presentes, e preparar-se para o futuro”.

A sobrevivência política não tem a ver com os outros, mas com o próprio. Um exemplo típico é o do ex-senador baiano Antonio Carlos Magalhães (ACM), que, durante anos, dominou a cena política brasileira, mas começou a perder prestígio com o envolvimento no escândalo da violação do painel do Senado. Ao lado dos senadores Jáder Barbalho e José Roberto Arruda, que foram articuladores políticos do Governo FH, ACM foi um dos principais personagens deste imbróglio.

Os conflitos entre Jáder e ACM se iniciaram em 1999, quando disputavam o controle da relatoria do Plano Plurianual (PPA) para o quadriênio 2000-2003, um conjunto de políticas sociais do governo que foi batizado de Programa Avança Brasil. Com um volume de recursos em torno de R$1,1 trilhão, a disputa pela relatoria do PPA provocou uma verdadeira guerra entre os dois parlamentares com o aval de Fernando Henrique.

Nesta disputa, Jader acusou ACM de ser sócio do ex-banqueiro Ângelo Calmon de Sá, antigo proprietário do falido Banco Econômico, numa empresa situada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. ACM denunciou que Barbalho havia provocado um desfalque no Banpará, no período em que governou aquele Estado.

Derrotado por Jáder Barbalho, ACM iniciou um processo de isolamento político que aumentou ainda mais seu distanciamento do Palácio do Planalto, apesar de ainda manter o controle dos ministérios das Minas e Energia e Previdência Social.

Nesta mesma época, estavam sendo feitas investigações sobre o escândalo da construção da sede do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, que envolvia o então senador Luiz Estevão (PMDB-DF) com denúncias de participação num esquema de superfaturamento da obra e desvio de recursos.

Luiz Estevão, que havia sido sub-relator do PPA, estava sendo investigado pelo próprio Senado. Em junho de 2000, Luiz Estevão foi cassado em sessão em que ocorreu a violação do painel do Senado. A posição de cada senador começou a ser tornada pública por vazamento nos bastidores feito por ACM, que havia conseguido de forma ilegal a lista de votação.

Mas o esforço para aumentar a influência política não é necessariamente errada, pondera Otávio Dulci. “Acho que a política no mundo inteiro, desde a idade da pedra, é isso. É uma vocação. Um trabalho da pessoa que tem vontade de estar na vida pública. Este ponto, eu não vejo como errado”.

Sarney acumula cinco mandatos

Desta perspectiva, considera inegável reconhecer o prestígio político de José Sarney, 78 anos, que apoiou a ditadura militar, dirigiu o primeiro governo civil com a morte de do presidente Tancredo Neves, e atualmente ocupa pela terceira vez a presidência do Senado.

Tido como o mestre na arte da sobrevivência política, José Sarney acumula desde 1971 cinco mandatos como senador, sendo dois pelo Maranhão e três pelo Amapá.

Companheiro de partido, o deputado federal Michel Temer (PMDB-SP) acumula proeza similar. Esta também é a terceira vez que ocupa a presidência da Câmara dos Deputados.

Roberto Jefferson, que atualmente mantém visibilidade como presidente nacional do PTB, também é um dos exemplos dos experts na arte de sobrevivência política. Acusado de envolvimento em esquema de corrupção nos Correios, Jefferson denunciou o esquema do “mensa-lão” onde congressistas aliados receberiam, segundo ele, R$ 30 mil para votar a favor do Governo federal.

A denúncia detonou uma bola de neve que atingiu indistintamente todos os partidos, integrantes do Governo Lula, mas, e, principalmente, o PT, que até então se mantinha como uma vestal da moralidade. Militante da tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor, Roberto Jefferson já havia sobrevivido ao escândalo que levou ao processo de impeachment e do envolvimento no esquema de propina na CPI do Orçamento.

E ex-presidente Fernando Collor, que ficou oito anos com seus direitos políticos cassados, voltou à cena política como senador e já foi recebido por Lula, de quem foi ferrenho adversário.

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