As mulheres de Queridos Amigos
por Léo Quintino
Por Vitor Hugo Soares:
Há quem enxergue na minissérie “Queridos Amigos", de Maria Adelaide Amaral, apenas a catarse política de uma fatia de intelectuais da classe média paulista. Ressaca braba da turma de esquerda com a queda do Muro de Berlim, que “precipitou o fim das ditaduras comunistas do Leste da Europa", como assinalou a VEJA, em uma das primeiras matérias sobre o novo seriado da Globo.
O desmoronamento da utopia comunista, no ocaso dos anos 80, é simbolizado pelas cenas da demolição do muro que separava dois mundos em permanente choque ideológico, transmitidas “ao vivo” pelo enviado do Jornal Nacional a Alemanha, que às lágrimas o jornalista Tito. Reenitente machista e indisfarçável “cururu” marxista representado à perfeição por Matheus Nachtergaele.
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Mas, olhando bem, é fácil verificar: há muito mais do que vãs ideologias a merecer destaque na apreciação da trama de TV dirigida por Denise Saraceni. Bem amarrada em experiências pessoais e uma cristalina dose de cumplicidade da autora, a série foca a luta em defesa do valor humano da amizade, empreendida por um grupo que resiste a entrar na onda individualista que avança no País, depois da frustração da vida sem individualidade nos aparelhos da militância clandestina.*
Os capítulos desta semana, por exemplo, sobretudo os que mostraram a prostração de Raquel, vivida por Maria Luisa Mendonça, que devotava ao marido amor incondicional e confiança total, até ver confirmada a traição de Pingo - representado por Joelson Medeiros -, mexeram, com densidade dramática e ironia, em questões delicadas além da política. A paixão amorosa que cega e pode levar à loucura, a dor do abandono inesperado e a ira pela traição que esfacelam sentimentos e não há cola que remende. *
Serviram também para dar maior nitidez a uma impressão inicial: a abordagem contundente dos conflitos íntimos dos personagens, principalmente os femininos, feita com a delicadeza dos verdadeiros amigos, é que dá força e representa a novidade maior de “Queridos Amigos", na transposição primorosa para a teledramaturgia.
É semelhante ao representado para a turma dos anos 60, por obras como “1968: o Ano que Não Terminou", de Zuenir Ventura ; “O que é isso Companheiro?", de Fernando Gabeira; e os “Carbonários", de Alfredo Syrkis, que inspiraram outra série marcante da televisão brasileira: “Anos Rebeldes".*
As cenas da reunião em São Paulo dos velhos amigos , convocada por Leo (Dan Stulbacch) , portador de doença degenerativa grave que o carrega inexoravelmente para a morte, ligam a memória ao famoso reveillon de 68 na casa de Heloísa Buarque de Holanda, no Rio de Janeiro. Relato factual, temperado com fina ironia, que abre o livro famoso de Zuenir sobre a catarse do tempo da ditadura militar.
Na festa carioca, a “união livre e feliz” da atriz e jornalista Maria Lucia Dahl com o cineasta Gustavo Dahl, que questionava todos os padrões de casamentos tradicionais da época, acaba com uma sonora bofetada do marido no rosto da mulher, em pleno salão lotado pela fina flor dos intelectuais engajados da época.
O aparentemente bem resolvido Gustavo, de repente, fora tomado pela fúria do mais reles ciumento, como qualificaria talvez o “reacionário” Nelson Rodrigues, ao ver que Lucia dançava agarradinha com um rapaz de quem ele não gostava. O comentário de um observador da cena, registrado no livro do ex-editor do Caderno B do Jornal do Brasil é fundamental: “Logo eles!”
Vale uma releitura de “1968″ para os veteranos crentes em utopias, ou uma primeira leitura para os mais jovens ou os mais céticos, descrentes de quase tudo. Ajudará bastante na compreensão de algumas situações e figuras que agora gravitam ao longo da história paulista de Maria Adelaide, nas noites e madrugadas da TV Globo. Principalmente as mulheres de “Caros Amigos", herdeiras dos feitos de Maria Lúcia Dahl e Leila Diniz - entre outras famosas e anônimas dos 60 - , de suas conquistas, amores e dissabores além dos muros das organizações clandestinas.
A Raquel, de Maria Luisa Mendonça; a Bia, de Denise Fraga; a Lena, de Débora Bloch; a Iraci, de Fernanda Montenegro; a Teresa, de Aracy Balabanian; a Flora, de Aida Leiner; a Vânia, de Drica Morais, a Lorena, de Fernanda Machado; a Lúcia, de Malu Galli, a Ester, de Natália Timberg; a Carina, de Mayanna Neiva… Personagens que poderiam ser reconhecidas em relatos baianos, gaúchos, mineiros ou pernambucanos sobre os anos 80.
Mulheres interessantes e interessadas agora, na trama de Maria Adelaide, em testar na prática as teorias de seus amigos, namorados ou amantes de esquerda e de direita. Figuras femininas em suas apostas cruciais pela conquista de espaços, respeito e oportunidades - doloridas muitas vezes, outras cheias de delícias -, que começaram a mudar de fato a cara do Pais, pouco antes da chegada do novo milênio.
A trama da nova série da Globo transcorre no último mês dos anos 80, fase de turbulência no Brasil e no mundo, período em que as esquerdas perdem suas referências e o individualismo exacerbado toma corpo. O que se vê na telinha é o esforço quase desesperado de um grupo para salvar o que consideram a principal conquista da “família", como eles se denominam: a amizade.
Não sei em que isso vai dar. Mas com mulheres com as de “Queridos Amigos", vale a pena ter esperança.
Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@ig.com.br

09-03-08 19:47:36,