Apito, calcinha e oração marcam votação na Câmara Municipal de BH
por Léo Quintino
De Amanda Almeida e Alice Maciel, no Estado de Minas:
Em três horas e meia de reunião, a agitação das galerias se misturava à do plenário num dia que entrou para a história da Câmara. Em vão, por 16 vezes os vereadores pediram silêncio
Não foram apenas as galerias cheias que marcaram um dia atípico na Câmara Municipal de Belo Horizonte. No ápice de um longo capítulo de crise no Legislativo belo-horizontino, cenas completamente fora do script compuseram a reunião de análise do veto do prefeito Marcio Lacerda (PSB) ao reajuste de 61,8% no contracheque dos vereadores. Foram três horas e meia de reunião, com direito a parlamentar colocando máscara e soprando apito, marchinhas de carnaval e até calcinha balançada em plenário. Vaiado por toda a sessão, o presidente da Casa, Léo Burguês (PSDB), terminou o dia rezando um pai nosso.
Até o público causou situação inusitada na Casa. Cena incomum no Legislativo da capital, as galerias ficaram lotadas. De um lado, manifestantes pediam a manutenção do veto do prefeito. Em linha diferente, jornaleiros gritavam pela derrubada de outro veto de Lacerda. Nos bastidores, vereadores diziam que a inclusão da proposta de interesse dos jornaleiros na mesma pauta do veto ao reajuste foi uma estratégia da Mesa Diretora para abafar a manifestação dos contrários ao salário de R$ 15 mil. Ansiosos pela decisão dos vereadores, os manifestantes tiveram de ouvir duas horas e 26 minutos de discursos.
Insatisfeitos e considerando a maioria dos discursos demagogos, os manifestantes chegaram a interromper a sessão por várias vezes, entoando gritos de guerra, como “reajuste zero, reajuste zero”. Quando um vereador pediu cinco minutos de silêncio pela morte do cantor Wando, na quarta-feira, uma manifestante chegou a tirar a calcinha, desmoralizando os parlamentares. A sessão foi presidida por diferentes vereadores, que pediram silêncio por 16 vezes.
No microfone, parlamentares se revezavam na tentativa de se fazerem escutados. “Ganhava três vezes mais no meu comércio antes de ser vereador”, dizia o vereador Preto do Sacolão (PMDB), sem conseguir completar o raciocínio e declarar o voto favorável à manutenção do veto. Por um momento, a discussão se voltou para o fato de o voto ser secreto. O novato Fábio Caldeira (PSB) propôs aos colegas uma alteração no regimento interno: “É democrático”. Contrariado, Joel Moreira (PTC) respondeu: “Como teríamos coragem de derrubar o veto do prefeito que hoje é responsável por liberar verba para obras nas nossas bases eleitorais?”
Já a vereadora Neusinha Santos (PT) chamou os colegas de oportunistas por tratarem de um assunto “fácil de a galera aplaudir”. Ela ressaltou a dificuldade de acabar com o segredo devido às retaliações do governo. Sozinho – pelo menos em frente aos holofotes –, Leonardo Mattos (PV) defendeu com garras e dentes a derrubada do veto. Chegou a propor uma alteração no número de votos necessários (21), já que dois vereadores estão afastados por determinação da Justiça. Mas teve o pedido negado pela Procuradoria da Casa.
Presidente
Principal alvo dos manifestantes e um dos autores do projeto de reajuste, Léo Burguês passou longe da presidência da Mesa Diretora. Ficou quase todo o tempo recluso à Casa da Dinda, espaço anexo ao plenário em que os vereadores articulam e lancham. Nos poucos momentos em que saiu, foi vaiado. Por duas horas e 26 minutos, entrou em plenário por três vezes, uma delas para votar. Mas, diante do resultado, saiu da sala, fazendo gestos de vitória e abraçando outros vereadores. Assunto encerrado, o plenário passou a discutir o segundo veto do prefeito, o dos jornaleiros. Aliviado, Burguês resolveu falar: “A existência das galerias é importante para a democracia. Assim, conseguimos derrubar vetos como esse”.
Interessados na derrubada do veto ao projeto que, entre outras coisas, permitia o funcionamento das bancas de jornais e revistas por 24 horas e ainda a contratação de três auxiliares, os jornaleiros aplaudiram Burguês. Veto derrubado, o presidente da Casa subiu as escadas da Câmara Municipal até as galerias para abraçar e rezar com os integrantes do Sindicato dos Jornaleiros. A atitude do parlamentar foi o estopim para mais um tumulto, em que o presidente alega ter sido agredido com socos, cotoveladas e pontapés.

10-02-12 09:11:00,