A redescoberta do Brasil

por Léo Quintino Email

Por Murillo de Aragão:

De tempos em tempos os Estados Unidos “descobrem” ("resdescobrem") o Brasil. Essas descobertas não ocorrem de forma harmônica nem inexorável, mas complexo. Muitas vezes alegórico, como nos tempos em que Walt Disney criou o Zé Carioca. O Brasil, com sua tropicalidade, desperta mixed fellings. Cabendo enfado, curiosidade, lascívia, inveja, desprezo, pena etc. Não é uma descoberta abrangente e que atinja todos os setores. São descobertas setoriais. Às vezes, temporárias. Até então, cíclicas.

Na Segunda Guerra, a descoberta era política, motivada pelo temor de o Brasil se juntar aos nazistas. Enquanto os estados Unidos seduziam o Brasil, também se preparavam para uma eventual invasão do Nordeste, com a finalidade de utilizá-lo como plataforma para chegar à África do Norte. Não foi preciso. Nossas bases foram franqueadas e a herança cultural da “ocupação” ainda está presente por lá. Como prêmio ao esforço brasileiro, os Estados Unidos financiaram o desenvolvimento da indústria siderúrgica com a viabilização da CSN. Marco tanto da industrialização quanto da intervenção estatal na economia.

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No campo empresarial, empresas pioneiras vieram para cá desde o século XIX. Foram ficando e fizeram sucesso. A ponto de a AmCham – Câmara de Comércio Americana de São Paulo – ser a maior câmara de comércio norte-americana fora dos Estados Unidos. Curiosamente, a maioria das empresas filiadas à AmCham não é norte-americana.

Mesmo assim, investidores diretos foram embora. Alguns voltaram. Os que permaneciam mantinham as posições acreditando que um dia o cenário poderia melhorar. Conheci muitos deles que pensaram em desmontar suas operações para nunca mais voltar. Uma grande fábrica de iogurtes chegou a se preparar para vender tudo. Um produto novo e uma gerência eficiente mudaram a estória. Um laboratório farmacêutico vendeu tudo para resolver, anos depois, voltar. A Chrysler, por exemplo, anuncia fortes investimentos na América Latina, o que significa que está de volta ao Brasil pela terceira vez.

Os bancos sempre foram pioneiros nas várias ondas de interesse. Nas duas últimas décadas, foram os lideres no investimento no mercado emergente de nossos títulos e ações. Quase todos os grandes bancos norte-americanos estão no Brasil. Uns poucos não têm presença significativa. Devem estar repensando suas decisões.

Na diplomacia, nossas relações também foram erráticas. Melhoraram com Collor. Não melhoraram com Itamar Franco, mais terceiro mundista do que o seu antecessor. Avançaram com FHC. Mas, menos do que poderiam. Com Lula, a situação tende a novo upgrade. São várias as razões. Algumas delas apontadas em um artigo de Roger Cohen no The New York Times desta semana e traduzido pelo G1 e pelo UOL.

Cohen descobre a pólvora ao apontar potencialidades (agricultura, matéria prima, energia, meio-ambiente e comércio com a China) e fragilidades (segurança pública etc). Pontifica lembrando Tom Jobim: o Brasil não é para iniciantes. Só faltou citar Pelé para completar o roteiro de obviedades. Mesmo assim, o artigo vale por apontar uma nova descoberta do Brasil pelos Estados Unidos. Cujos contornos são delineados, em parte, pelo artigo. Sugere que, desta feita a descoberta não deverá ser cíclica como as demais e muito menos setorial.

O Brasil de hoje, com suas fragilidades e potencialidades, é um país melhor conhecido – sobretudo, entendido – por bancos, empresários e pela diplomacia norte-americana que, finalmente, parece entender como funciona a dinâmica entre dois países grandes e complexos como Brasil e Estados Unidos. Nesse sentido, a gestão do embaixador Cliford Sobel tem sido mais do que louvável.

Murillo de Aragão é mestre em ciência política e doutor em sociologia pela UnB e presidente da Arko Advice – Análise Política

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