Ofensiva contra Gaza chega a impasse

por Léo Quintino Email

Na Folha de S. Paulo, de Marcelo Ninio:

Mais de 800 ataques de Israel não neutralizaram poder de fogo do Hamas, mas invasão terrestre divide dirigentes do país.Palestinos mortos passam de 420 e espaço diplomático se estreita para Israel, que autoriza a saída de 300 estrangeiros do território

A maior ofensiva aérea já realizada por Israel contra alvos palestinos entra hoje na segunda semana sem definição. Mesmo após destruir grande parte da infraestrutura de governo na faixa de Gaza, em bombardeios que já mataram mais de 420 pessoas e feriram cerca de 2.000, Israel continua sendo atingido por foguetes e os fundamentalistas não perderam o controle do território.

Segundo o Exército israelense, em sete dias de bombardeios foram atingidos perto de 800 alvos do Hamas, enquanto pelo menos 350 foguetes foram lançados de Gaza, matando quatro pessoas em Israel.

A opinião entre analistas em Israel é de que, à medida que a ofensiva avança sem alcançar o seu principal objetivo, que é neutralizar o poder de fogo dos fundamentalistas, aumenta a possibilidade de uma ação por terra. Milhares de soldados estão posicionados na fronteira com Gaza há dias, preparados para uma invasão.

Resposta:

Outro fator a apressar uma incursão para completar a ofensiva iniciada pela aviação seria o estreitamento do espaço diplomático. Até agora, Israel conseguiu resistir aos apelos internacionais para suspender os ataques, incluindo a proposta da França de uma “trégua humanitária” de 48 horas.

Mas a partir de segunda-feira, quando o Conselho de Segurança da ONU se reúne para discutir a crise em Gaza, a estimativa é de que o relógio diplomático passe a correr mais rápido, e a pressão aumente. Após dar luz verde para uma resposta tão avassaladora, os líderes israelenses farão de tudo para vender à opinião pública, de modo digno de crédito, a ideia de que atingiram seus objetivos militares e políticos.

De acordo com um oficial da inteligência israelense ouvido pela Folha, persiste uma divisão nos primeiros escalões do governo e do Exército em torno de uma ação terrestre, devido ao alto risco de baixas entre soldados que ela implica.

Além disso, afirmou o oficial, a densidade populacional de Gaza, uma das maiores do mundo, significa que os civis palestinos estariam na linha de fogo. Por outro lado, os que defendem a ideia lembram que só a infantaria será capaz de eliminar a capacidade de lançamento de foguetes do Hamas.

“Tolice”

Um dos principais líderes do grupo advertiu que uma invasão terá um alto custo para Israel. “Se vocês cometerem a tolice de invadir Gaza, nós poderemos ter um segundo, terceiro ou quarto Shalit", disse Khaled Meshal em um canal da TV da Síria, onde vive exilado. A ameaça se refere ao soldado israelense Gilad Shalit, sequestrado há mais de dois anos pelos extremistas.

Em um gesto interpretado como mais um sinal de que a operação terrestre está próxima, Israel autorizou ontem a saída de cerca de 300 estrangeiros de Gaza. A decisão indicaria a intenção de evitar riscos a cidadãos de outros países em uma eventual invasão.
Entre os que saíram, a maioria era de mulheres e filhos de palestinos com passaportes estrangeiros. A representação do Brasil junto à Autoridade Nacional Palestina (ANP) informou à Folha que não recebeu nenhum pedido semelhante dos poucos cidadãos brasileiros em Gaza.

No sétimo dia da ofensiva, Israel informou ter atingido mais 30 alvos do Hamas, em ataques que deixaram seis mortos. Segundo fontes palestinas, cinco deles eram civis. Um dos mísseis lançados atingiu três crianças entre 8 e 12 anos que jogavam futebol numa rua de Khan Younis, no sul da faixa de Gaza. A ONU estima que 25% dos mortos até agora sejam civis.

Em Israel, mais de 30 foguetes atingiram cidades num raio de 40 km ao redor de Gaza. Seis pessoas ficaram, feridas. Interromper os disparos, que aterrorizam há anos as cidades israelenses da fronteira, são o principal objetivo de Israel.

Protestos

Na Cisjordânia, controlada pelo grupo palestino secular Fatah, rival político do Hamas, milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra os bombardeios. Atendendo ao apelo do Hamas por um “dia de fúria", eles protestaram não só contra Israel, mas também contra o líder do Fatah, Mahmoud Abbas, presidente da ANP. Os maiores protestos foram em Ramallah, onde os manifestantes jogaram pedras contra a polícia palestina e foram rechaçados com bombas de gás lacrimogêneo.

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